Francisco Miranda Rodrigues, Bastonário da Ordem dos Psicólogos Portugueses

A democracia, o medo e a raiva entram num café…

A defesa e melhoria da qualidade da democracia também passa pelo cuidado com as emoções dos cidadãos, pelo exemplo das elites, pelo trabalho para prevenir injustiças.

As emoções têm um papel sempre presente nas nossas vidas. Algumas até tentamos nunca as mostrar, mas elas estão sempre lá. O medo, por exemplo, é determinante para nos preparar face às incertezas ou a coisas que se diferenciam de nós, para tentarmos garantir a nossa segurança.

Já a raiva mobiliza-nos para agirmos, para lutarmos, face ao que consideramos uma ameaça ou injustiça e é a resposta comum e esperada face à percepção da violação de normas e leis. Ambas se conjugam e desempenham uma função historicamente adaptativa para a nossa espécie. Todavia, têm um lado negro, associado à barbárie, aos massacres, aos genocídios e às guerras.

Os líderes populistas usam o medo e a raiva, manipulam-nos, mentindo-nos e contando-nos estórias, total ou parcialmente falsas, que despoletam os nossos medos e a nossa raiva. É assim quando nos dizem que a violência tem aumentado devido aos imigrantes, fazendo-nos ter medo da sua presença junto de nós1. É assim quando agitam a corrupção das elites para nos fazer sentir injustiça e raiva. Depois, mobilizam-nos através dessa raiva em direcção aos supostos perpetradores de injustiças, contra Eles, as elites que nos exploram2.

Quando as pessoas têm medo abandonam o comportamento típico das situações que lhes são familiares e procuram novas soluções. Só que estas novas soluções, quando as pessoas estão enraivecidas, caracterizam-se por convicções reforçadas, não necessariamente factuais e parecem não ouvir as mensagens que as possam contradizer3. Quanto maior a raiva maior a força com que fazemos a defesa das nossas posições.

Se pensarem na nossa história mais ou menos recente encontrarão muitos exemplos destes factos e das suas consequências. A repetição desta história, nos dias de hoje, ocorre com meios de comunicação e disseminação de informação bastante mais potentes e sofisticados do que os cafés de antigamente. Comunicação social, redes sociais digitais, algoritmos, redes de transmissão de dados e computação velozes, misturando-se com maior isolamento social… são alguns factores de risco para o fenómeno nos dias de hoje.

Agora, o medo e a raiva encontram a democracia, como se numa conversa de café, e na sua expressão parecem até querer a sua supressão. A democracia, através da partilha explícita das representações do mundo que cada um tem, funciona como um espaço colectivo de correcção de enviesamentos.

A defesa e melhoria da qualidade da democracia também passa pelo cuidado com as emoções dos cidadãos, pelo exemplo das elites, pelo trabalho para prevenir injustiças ou a perceção das mesmas e pelo respeito pelas suas necessidades, com humildade.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

 

1 Portugal, segundo o último CENSO, apenas tem pouco mais de 5% de estrangeiros na sua população. Esta percentagem tem aumentado face a CENSOS anteriores, mas apesar deste aumento a percentagem de estrangeiros reclusos nos estabelecimentos prisionais portugueses e o seu número absoluto tem decaído. 

2 Na última década, foram 1.770 os condenados por corrupção (média de 177 por ano) e na década anterior 1.440 (média de 144 por ano). Os inquéritos abertos pelo Ministério Público, por exemplo devido a denúncias, foram de 3.500. Já a percepção que os portugueses têm sobre o fenómeno é que é mais elevada… mas sobre isto já escrevi aqui anteriormente. 

3 Passamos a um modo de pensamento em que os raciocínios são usados para apenas justificar o que pensamos e não nos questionarmos se podemos estar certos ou errados. 

Relacionado