Pedro Latoeiro, Fundador do Center for Cooperation in Cyberspace e Filipe Domingues, Fundador do Center for Cooperation in Cyberspace

11 mil milhões e uma bússola

Se a ciberdiplomacia ainda é vista, em vários Ministérios dos Negócios Estrangeiros desse mundo fora, como uma pasta aborrecida, nos EUA já se está a consolidar como uma dimensão prioritária da ação exterior.

Como um lutador a exibir os músculos ao adversário, o Ocidente acaba de elevar o lugar do ciberespaço na sua estratégia diplomática e de segurança. Cada um à sua maneira, EUA e União Europeia reconhecem que os dados, as normas tecnológicas e as armas cibernéticas são hoje instrumentos vitais de afirmação no mundo.

Em Washington, o presidente Biden apresentou um orçamento que atribui às agências federais 11 mil milhões de dólares para melhorar a segurança cibernética das infraestruturas públicas e privadas do país. A subida homóloga de 11% foi apoiada pelos republicanos, convertendo-se numa das raras medidas desta administração a reunir consenso bipartidário.

De facto, esta montanha de dinheiro procura responder a preocupações quotidianas do eleitorado. Dados revelados esta semana pelo FBI confirmam uma subida sem precedentes do crime online no país, com perdas estimadas em 6,9 mil milhões de dólares só no ano passado. As empresas e os cidadãos mais velhos pagaram a fatia de leão, devido sobretudo a esquemas para comprometer emails e sequestrar sistemas corporativos.

Outra tendência marcante foi o crescimento em sete vezes dos fluxos ilícitos de criptomoedas, que estão a tornar-se na divisa oficial do cibercrime.

Mas a expansão do orçamento para os assuntos ciber também revela importantes nuances da política externa. Vai financiar, por exemplo, o recém-inaugurado Escritório do Ciberespaço e Política Digital do Departamento de Estado.

Se a ciberdiplomacia ainda é vista, em vários Ministérios dos Negócios Estrangeiros desse mundo fora, como uma pasta aborrecida, ideal para um nicho de funcionários que entendem de computadores, nos EUA já se está a consolidar como uma dimensão prioritária da ação exterior.

Redes 5G, governança da Internet e negociações internacionais para regular o ciberespaço serão alguns dos dossiês sob a alçada do novo Escritório, que terá 100 funcionários chefiados por um embaixador confirmado pelo Senado e voz própria nas redes sociais. Poderá igualmente passar por esta equipa a tentativa dos EUA de assumir, pela primeira vez em 80 anos, o posto de secretário-geral da União Internacional de Telecomunicações, hoje nas mãos da China.

Deste lado do Atlântico aprovou-se, também por estes dias de guerra, o documento orientador da política de segurança e de defesa da União até 2030 – que contém 82 referências ao ciberespaço.

No plano das ameaças ao continente, a Bússola Estratégica equipara a avalancha de ciberataques a fenómenos que até há pouco tempo dominavam as manchetes e a própria agenda do Conselho Europeu, como o terrorismo, o extremismo violento e a imigração ilegal. Particular motivo de preocupação é a ingerência em eleições através de campanhas de desinformação online, o tipo de motivo por vezes invocado por Estados ocidentais para expulsar funcionários das Embaixadas russas.

O documento anuncia ainda a realização de exercícios militares, conjuntos e regulares, no ciberespaço e indicia que o tema poderá mesmo vir a fazer parte do “diálogo específico” sobre segurança a desenvolver com a Casa Branca.

De resto, no quadro da cooperação, a União Europeia faz questão de enumerar a longa lista de regiões com quem pretende trabalhar, acelerando a tendência para o renascimento de duas esferas de influência no mundo, assentes tanto em tecnologia como em ideologia. Das nações do Sudoeste Asiático aos Balcãs Ocidentais, de África à América Latina, todos são convidados a sentar-se à mesa de Bruxelas. Todos menos a China e a Rússia.

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