Luís Mira Amaral, Engenheiro e Economista

Os combustíveis de baixo carbono

A atual crise energética vem chamar a atenção para a importância dos biocombustíveis de 2ª geração para a descarbonização e maior independência dos combustíveis fósseis.

Integro o Conselho Consultivo da Plataforma para os Combustíveis de Baixo Carbono, a qual encomendou um estudo a três instituições de ensino superior e universitário, Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade NOVA de Lisboa, Institutos Politécnicos de Setúbal e Leiria.

Está-se a verificar com os veículos elétricos aquilo que normalmente acontece com as novas tecnologias: há uma fase inicial de grande entusiasmo com a procura a crescer liderada pelos early adopters. Só que estes apercebem-se que a nova tecnologia ainda não consegue satisfazer as expectativas e há então um retrocesso no mercado.

É o que está a acontecer com os veículos elétricos (VE) em que muitos early adopters vieram a experimentar uma desilusão pois perceberam que o VE ainda não os satisfaz em viagens longas, tendo voltado aos veículos de combustão interna (VCI) ou aos híbridos.

Assumiu-se que a descarbonização no setor automóvel, quer nos veículos ligeiros e sobretudo nos veículos pesados de carga, passava exclusivamente pela eletrificação, esquecendo uma via alternativa mais gradualista e realista que é a introdução de combustíveis de baixo carbono nas atuais frotas de VCI.

O referido estudo mostra que o consumo de gasolina em Portugal irá continuar a aumentar até 2030 e o de gasóleo terá um ligeiro decréscimo. Isto mostra a oportunidade que existe para os combustíveis de baixo carbono entrarem nessas frotas a substituírem os combustíveis fósseis.

Estamos a falar de biocombustíveis de 2ª geração, feitos a partir dos resíduos agrícolas e alimentares de acordo com os princípios da economia circular e não conflituando com as matérias-primas alimentares, como acontecia com os biocombustíveis de 1ª geração.

O estudo mostra que já há produção portuguesa e um grande potencial em Portugal para esses biocombustíveis de 2ª geração. O estudo também evidencia o elevado potencial do biometano nas frotas automóveis, mas cuja utilização será limitada pela reduzida frota movida a gás natural, embora a substituição do gás natural por biometano se afigure fácil.

A atual crise energética vem chamar a atenção para a importância dos combustíveis de baixo carbono, biocombustíveis de 2ª geração, não só para a descarbonização das frotas, como via complementar à eletrificação, mas também como uma solução racional para fugirmos à dependência dos combustíveis derivados do petróleo e caminharmos, no setor automóvel, para uma maior independência energética.

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