André Macedo

O Trump de Bruxelas

Nada é mais absurdo do que decretar uma taxa homogénea sobre grandes empresas num continente de legislações fiscais desiguais. Von der Leyen divide, não reinará.

Há em Bruxelas um fascínio genético pela engenharia institucional. Quando falta dinheiro, raramente se opta pela difícil arte de escolher prioridades. A solução preferida é sofisticada – arquitetar um novo imposto, como quem oferece uma boia de cimento a quem precisa de apoio. Maravilhoso. Num momento delicado da economia global, em que cada bloco protege ferozmente as suas empresas, a Comissão Europeia insiste em alimentar o sonho de uma tributação harmónica e distante, num continente definido precisamente pelas suas disparidades fiscais e competitividade desigual.

Não é apenas um equívoco técnico: é o clássico disparate político. É instrutivo assistir à tentativa da UE compensar a crónica magreza do seu orçamento lançando mão de uma tributação direta sobre as grandes empresas. Recorde-se: o orçamento comunitário para 2024-2027 ronda 1,1 biliões de euros.

Do outro lado do Atlântico, o orçamento federal dos EUA para 2023 ultrapassa os seis biliões de dólares. Ou seja, o gigante europeu vive com pouco mais de 1,1% do PIB conjunto, enquanto Washington gasta quase 25% do seu. A diferença é brutal, mas em Bruxelas faz-se de conta que não existe. Assim temos um orçamento miseravelmente repartido entre projetos, países e setores. No papel, a medida até parece justificável, mas na prática é desconexa.

Nada é mais absurdo do que decretar uma taxa homogénea sobre grandes empresas num continente de legislações fiscais desiguais. Enquanto a Irlanda protege o seu IRC de 12,5%, a França acomoda-se nos 25%. Portugal, discreto, mantém os 21%. Que lógica há em impor uma taxa comunitária, enquanto gigantes americanos e asiáticos continuam a jogar o xadrez global das tarifas e dos incentivos de Estado? No meio desta urgência fiscal, esquece-se uma verdade inconveniente: as cadeias globais estão sob pressão, a desglobalização avança e a guerra comercial entre EUA e China empurra a Europa para um canto cada vez mais frágil. Von der Leyen divide, não reinará.

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