O melhor barómetro de uma sociedade é a qualidade e robustez do seu sistema de educação pública. É um tema que não reflete apenas um investimento no presente, também se trata de um compromisso futuro que deveria tentar assegurar uma sociedade informada e justa. É urgente a inclusão de todos os membros da sociedade na procura da integração e acesso a oportunidades para todos. E é esse o papel principal de uma Escola pública de qualidade, ser o elevador social do país.
É por isso que nenhum de nós deveria ficar indiferente perante a atual greve dos professores. É um tema que nos toca a todos, pois é transversal e terá consequências hoje e amanhã. Certamente que durante os períodos de isolamento consequentes do Covid, muitos pais reconheceram o valor e a dificuldade da tarefa de ser professor no ensino primário ou secundário. Apesar de termos aclamado os professores de heróis, estes sentem-se desvalorizados e alvo de discriminação devido à falta de oportunidades de desenvolvimento de carreira ou de compensação financeira pelo seu trabalho.
Não querendo comentar os pontos concretos das revindicações, o que sei, de experiência, é que não teremos profissionais motivados e produtivos se não se sentirem respeitados e tratados com dignidade. Ameaças de processos disciplinares e a imposição de serviços mínimos não me parecem ser o caminho de reconhecimento do papel imprescindível que estes profissionais desempenham a favor da nação e de todos nós.
De acordo com o Eurydice, os salários de início de carreira dos professores da Europa variam entre 4.233 euros na Albânia a 69.076 euros no Luxemburgo. Infelizmente, Portugal não se destaca por ser muito competitivo nesta tabela, com um salário médio estimado nos 22.374 euros, que, previsivelmente, se encontra abaixo da média da União Europeia. O indicador provavelmente mais preocupante é que um professor demora em média 34 anos a chegar topo da progressão de carreira, fruto do congelamento das carreiras, que se compara com 20 anos no sistema finlandês.
Em paralelo, uma dificuldade ainda mais preocupante prende-se com a atração de jovens para esta profissão. Em 2020, 49,6% dos professores do ensino secundário do nosso país tinham mais de 50 anos de idade. Ora, não é possível sustentar um sistema de ensino público sem a capacidade de atrair e reter novos professores. Por outro, a estratégia não deveria ser apenas conseguir “encher” o número necessário, porém antes atrair os melhores: aqueles que possuam uma verdadeira vocação para serem professores. Seguramente, todos terão uma história de um professor que teve um especial impacto na sua vida.
O próprio esforço que pedimos aos professores portugueses é mal comparado com outros países. Em 2021, um professor do ensino primário lecionava uma média de 869 horas versus 691 horas do seu par alemão. Para quem não ensina pode parecer pouco, contudo é muito vezes ignorado o tempo de preparação e dedicado a tarefas complementares que são essenciais para garantir uma atividade letiva de qualidade. Ou seja, o tempo em sala é apenas uma pequena parte do trabalho do professor.
Educar uma nação é uma tarefa dura e complexa. Assim, precisamos de profissionais apaixonados, resilientes e comprometidos. Para tal, precisamos valorizar quem de forma corajosa decide abraçar o desafio de ser professor com o intuito de melhorar a sociedade, porque como têm dito nas manifestações, eles estão em luta pelos interesses dos filhos de todos. Em alternativa, teremos uma nação sem educação…