Transição energética: legislação traz desafios de literacia e formação

Manuel Casquiço defendeu na conferência do JE, sobre a Transição energética, na Pérez-Llorca a necessidade de aumentar a literacia, a formação e a capacitação das PME para enfrentar os desafios da transição energética, que considera "uma oportunidade" para todas as empresas e indústrias. O Diretor de Indústria e Transição Energética da ADENE admitiu a existência de muita legislação paralela, mas que não está necessariamente a mais. Directiva da Eficiência Energética chega em 2027.

Transição energética: legislação traz desafios de literacia e formação
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As Pequenas e médias empresas (PME), devido à dimensão, e os sectores dos transportes e da indústria, pela complexidade da atividade, são os que sentem maior dificuldade na transição energética.

“Os transportes têm muita dificuldade em descarbonizar. A indústria também tem essa dificuldade”, afirmou Manuel Casquiço, diretor de Indústria e Transição Energética da ADENE, entrevistado por Filipe Gil, editor do Jornal Económico, olhando para um caminho que continua a ser feito: a transição energética.

“A fatura da energia é um peso importante, podendo, muitas vezes, representar 30% a 40% nas industrias intensivas. Nos transportes, não se trata apenas dos camiões, mas de toda a logística. A ideia é que o transporte, o camião, possa aproveitar rotas e otimizar rotas, que vá carregado e que volte carregado…”, explicou. Em ambos os casos, sintetizou, a energia é um factor de competitividade muito importante.

Reduzindo os custos da energia, as empresas reduzem quase automaticamente os custos operacionais e aumentam as margens do negócio. A transição energética em curso é um processo fulcral nesse processo.

“A legislação e a regulação obrigam as empresas a fazer um conjunto de iniciativas e atividades que incorporam nos seus processos. Isso é visível”, salientou, exemplificando: “A intensidade energética, na última década, desceu cerca de 15%, o que significa que quando comparamos o consumo de energia pelo valor acrescentado bruto, efetivamente, estamos mais competitivos. A indústria portuguesa está mais competitiva”. 

As empresas até estarão mais competitivas, mas, há custos de adaptação e crises pelo caminho. Manuel Casquiço lembra-os, mas continua a olhar para o copo cheio: “Só  adotando medidas de eficiência energética se tornarão mais resilientes. A transição é uma oportunidade para todas as indústrias, não um custo”.

A velocidade é um factor importante, mas depende do conhecimento que se tem ou não se tem, da legislação.

Já em 2027, as empresas vão enfrentar um novo desafio com a entrada em vigor da Diretiva da Eficiência Energética na sua transposição para o Direito português.  

A Diretiva (UE) 2023/1791, aprovada pelo Parlamento Europeu e pelo Conselho Europeu, visa aumentar a eficiência energética e reforçar os objetivos do Pacto Ecológico Europeu.

Atualmente, as empresas que consomem em termos de fatura energética mais de 250 mil euros por ano têm já que cumprir várias medidas neste campo, uma exigência que esta nova Diretiva vai alargar a empresas de menor dimensão.   

“Empresas a partir de 125 mil euros de fatura de energia por ano vão passar a ter sistemas de auditorias obrigatórias, sistemas de gestão energética, portanto, vão ter de cumprir com determinados requisitos a partir do momento em que a Diretiva entrar em vigor”, esclarece Manuel Casquiço.    

Estarão as PME preparadas para o desafio? – questiona Filipe Gil.

“Se, já, neste momento, não estão preparadas para cumprir determinado limiar, vai ser bastante mais difícil. Muitas dessas pequenas e médias empresas não têm capacitação, não têm formação nos termos específicos desta área de energia, muitas vezes, recorrem ao outsourcing também, o que coloca alguma pressão aí, pois é preciso formar novos técnicos para esta rede”.

Além disso, acrescenta, há a questão da digitalização, do processo de fabrico, do processo de produção, dos sistemas de monitorização e de acompanhamento. Tanto factor novo do ponto de vista tecnológica exige literacia e formação destas empresas.

“Associamos literacia energética só ao sector residencial, mas também é preciso, ao nível das empresas e das pequenas indústrias”, adianta o responsável da ADENE. 

Estamos a regular de mais?Há legislação a mais? – quer saber o jornalista.

O diretor de Indústria e Transição Energética da ADENE sabe que é generalizada a ideia de que a Europa regula e os outros inovam, mas nem tanto ao mar nem tanto à terra. “Não digo que é muita, torna-se difícil dizer isso, porque é preciso haver regras, o que acontece é que existe muita legislação paralela (…) Edifícios, transportes, indústria, agricultura, pescas, em todos estes sectores e outros, há iniciativas paralelas. Além das Diretivas que vão saindo, existem outros documentos da União Europeia … torna-se difícil acompanhar”.

A conferência “Transição Energética” promovida pelo Jornal Económico, com o apoio da Pérez-Llorca e o patrocínio da PRIO e da Iberdrola, junto especialistas de referência para discutir os principais desafios e oportunidades que marcam este processo.

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