A confiança nas instituições políticas em Portugal nunca foi alta, mas tem vindo a degradar-se significativamente nos últimos anos. Por instituições políticas, refiro-me a coisas como o governo, o parlamento, os partidos políticos, o sistema judicial, o tribunal de contas e por aí fora.
Submeto a tese ao leitor de que as instituições políticas em Portugal são viciosas. Ou, por outras palavras, não são organizações virtuosas, equilibradas e alinhadas com um bom propósito. Para ilustrar recorro as virtudes de Aristóteles, sobretudo as quatro virtudes mestras, a saber: a justiça, a temperança, a coragem e, a prudência ou phronesis. Mas antes de prosseguir, importa explicar ao leitor o que se quer significar com virtude.
Por exemplo, ser corajoso em excesso pode traduzir-se em coragem suicida. Por outro lado, um défice de coragem traduz-se em covardia. Tanto o excesso, como o défice de alguma coisa, é considerado um vício. Outro exemplo: ser-se demasiado justo pode traduzir-se em uma espécie de “olho por olho, dente por dente”, uma espécie de ditadura justicialista. Por outro lado, um défice de justiça traduz-se numa anarquia. Por isso se diz popularmente que “no meio é que esta a virtude”. E assim para as restantes virtudes. Onde não há virtude, i.e., onde existe vício, não existe florescimento coletivo.
Tomemos agora o exemplo do Parlamento e a comissão de inquérito à TAP. Será virtuoso ou vicioso? O relatório final está ferido de dois vícios. Covardia, porque não é capaz de censurar o Governo e os seus membros na sua atuação, por isso mesmo não é justo nas suas conclusões. Não mostra bom julgamento, excelência de carácter e compreensão moral, pelo que carece de prudência ou phronesis. Quase paradoxalmente, os partidos políticos, são muitas vezes covardes porque não elogiam o governo (não necessariamente este) quando merece, portanto, injustos, não exibindo prudência. Até porque são compostos de muitos indivíduos sem experiência profissional e de vida, e sem mundo.
O virtuosismo dos indivíduos melhora com a diversidade de experiência onde as dimensões morais e éticas são testadas. Por outro lado, o governo é covarde porque não toma medidas impopulares e não opera as reformas que se impõem para assegurar o futuro do país. Governa sem virtude, para se perpetuar entrincheirado no poder e não para criar as condições para que a sociedade e a economia portuguesas possam florescer. Como o leitor já percebeu as virtudes estão todas ligadas, trata-se do princípio da unidade das virtudes. Dificilmente um covarde é justo, ou exibe temperança, bom julgamento e carácter (phronesis).
O problema é que o exercício da virtude requer contexto. Ser corajoso na Coreia do Norte não é o mesmo do que ser corajoso em Portugal ou na Dinamarca. Esse contexto é a democracia e a liberdade que ajuda a virtude a florescer. Donde, havendo vício, não há liberdade nem democracia.