Uma sucessão de acontecimentos aponta para a erosão do ativo estratégico mais importante que sustentou a ordem internacional construída pelo Ocidente desde 1945: a previsibilidade.
O verdadeiro significado do encontro em Beijing de Xi e Trump será este: o mundo começou a perceber que a ordem internacional do século XXI já não será exclusivamente atlântica ou ocidental, mas, inevitavelmente, plural, competitiva e multipolar.
A resolução da crise geoeconómica e geopolítica atual exige novas referências e novos protagonistas. O mundo lusófono e o mundo hispânico, pelo papel que desempenharam e continuam a desempenhar na construção do mundo global, são ativos que importa valorizar.
O Governo iraniano terá subavaliado o pouco respeito que o presidente norte-americano tem pela opinião da comunidade internacional. Mais uma vez, Trump não teve dúvidas em agir fora dos quadros do Direito Internacional.
Em Munique, em fevereiro de 2026, alguém disse em voz alta o que todos sabiam em silêncio. A ordem baseada em regras não colapsou de repente. Apodreceu lentamente, sustentada por décadas de hipocrisia administrada.
Entre as várias mensagens que a cimeira deixou ao mundo, destacamos esta. 'Estamos, aqui, empenhados em lançar as bases de uma organização mundial diferente. Queremos um mundo onde a Multipolaridade seja o guião estruturante dessa nova ordem'.
Na busca incessante por mostrar força, Trump acaba revelando fraqueza. Não é sinal de grandeza derrotar aliados, mas sim a demonstração de que já não se consegue obter vitórias significativas contra os verdadeiros adversários.
Este encontro não envia apenas "sinais anti-ocidentais", como também representa um "desafio direto ao sistema internacional baseado em regras e não é apenas uma questão de simbolismo", afirmou Kaja Kallas à imprensa, em Bruxelas.
A Declaração da última cimeira dos BRICS, este ano, destaca a reconfiguração da Ordem Internacional, consubstanciada na exigência de uma Governação Global mais justa e plural.
Para a Europa, manter canais abertos com Moscovo não é um gesto de condescendência, mas uma necessidade estratégica. Isolar a Rússia é, em última instância, isolar-se das novas dinâmicas do século XXI.
Há mudanças no ar, uma transformação que pode determinar alterações profundas na Ordem Internacional. Mas existe esperança de que haja coordenação entre os estados e que a transição para um mundo menos globalizado não signifique forçosamente o conflito.
A guerra na Ucrânia e no Médio Oriente serve para acelerar e marcar o caminho de mudança da ordem internacional, e destronar uns EUA que a diplomacia de Trump (a falta dela) isolou e fragilizou.
Instituições como os BRICS, recentemente alargados, e o G20 ganham novas proporções e podem mesmo desafiar os equilíbrios estabelecidos ao longo de décadas.
Não deixa de surpreender quem no passado defendeu as intervenções humanitárias no Kosovo e na Líbia, não comparáveis ao que se está a passar na Palestina, esteja agora silencioso e, nalguns casos, até contemporizador com o comportamento de Telavive.
Neste tempo de voracidade, é urgente voltar ao início e reconhecer que, embora o mundo digital nos ajude e assombre, nascemos analógicos, seres irremediavelmente ligados ao mundo que nos circunda e à realidade em que nos inserimos.
Como pode persistir válido o poder de veto de um só país contra todo o mundo? Sem visar directamente a administração norte-americana, António Guterres reagiu bem. Não deixará de perseguir o objectivo de um cessar-fogo.
Há uma alteração fundamental dos equilíbrios herdados da II Guerra Mundial e do desmembramento do Pacto de Varsóvia e da União Soviética. As guerras no Médio Oriente e na Ucrânia são manifestações dessa evolução.
Gerir a sustentabilidade financeira do país num contexto internacional ainda mais desequilibrado, é o grande desafio da política económica americana dos próximos anos.
É extremamente positivo que a União Europeia se posicione ativamente na procura de novos equilíbrios. Por todas as razões e por um passado colonial que ainda pesa, esta será a forma de a UE se manter como ator global.
Seja qual for o vencedor das eleições no país, herdará uma política externa feita de equilíbrios e da gestão da posição geopolítica funcional que a Turquia tem, mas que também foi construindo.
Para o bem e para o mal, o Ocidente tem de se habituar à “dura” ideia de não poder mais definir unilateralmente, e nos seus próprios termos e interesses, a agenda global, como o fez ao longo de séculos.