Fernando Pacheco, Economista

‘Sunspots’

A viragem política nacionalista na República Checa, de que só nos próximos meses conheceremos a real extensão, é apenas mais um episódio no terramoto político europeu dos últimos anos.

As eleições legislativas na República Checa tiveram um resultado surpreendente, embora não inesperado atendendo aos sinais dados pelas sondagens: foi mais um episódio da deriva continental. O movimento ANO 2011 do milionário Andrej Babis, ex-ministro das Finanças, ganhou com 30% dos votos, enquanto os sociais-democratas perdiam três quintos dos seus, passando de 20,5% para 7,3% – são agora a sexta força política.

Igualmente surpreendente foi a subida do Partido Pirata, do disco-jóquei Bartos, que de 2,7% nas eleições anteriores passou para 10,8%, a terceira força, com 22 dos 200 membros da Câmara dos Deputados (o ANO tem 78). Esta será a primeira vez que o governo não é dos sociais-democratas do CSSD ou dos liberais conservadores do ODS. Com nove forças representadas, nunca a Câmara baixa esteve tão dividida.

Babis, o primeiro-ministro indigitado, é comparado com Trump, pela sua campanha populista, contra a imigração e a burocracia, e a favor do governo por empresários; como Trump, surge na política, mas não vem da política. É também comparado com Berlusconi, pois está sob investigação por alegada má utilização de fundos comunitários. Mas são mais preocupantes o ser eurocético e anti-imigração, na União Europeia de hoje.

Para ajudar, tem como vizinhos no parlamento, depois do ODS, os “piratas”, que com ele asseguram metade dos deputados e são partidários da democracia direta na versão internet, e estão dispostos a apoiar o candidato da ANO para presidente da Câmara dos Deputados se ficarem com a liderança de todos os comités parlamentares; e o SPD, o Partido da Liberdade e da Democracia Direta, ainda mais eurocético e anti-imigração – o assistente parlamentar Jaroslav Stanik terá dito à ministra Markova, num restaurante do Parlamento, que “judeus, homossexuais e ciganos deviam ir para a câmara de gás”.

Esta viragem política nacionalista na República Checa, de que só nos próximos meses conheceremos a real extensão, na mudança que gerou – “limpando” a representação política tradicional e entregando o País a pouco conhecidos, embora ilustres – é apenas mais um episódio no terramoto político europeu dos últimos anos. A vitória de Babis é “o sintoma triste de uma crise mais lata”.

Do Brexit à Catalunha, passando por França, o descontentamento popular tem posto mais questões do que dado respostas, num espaço económico e político que há quinze anos atrás discutia o avanço para uma federação e agora discute a sobrevivência, que para já se jogará no match Espanha-Bélgica. O cântaro vai mais uma vez à fonte, e vamos esperar que mais uma vez não se parta.

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