Luís Osório, Consultor

‘Silly’

Chegámos a um ponto em que já não percebemos nada de nada, a moral tornou-se uma batata a murro.

Terramotos, férias dos políticos, pontais, pontinhas e pontadas, mais candidatos presidenciais e o diabo a quatro sob a forma de um fogo que, ainda assim, não incendiou a vontade de descanso do líder da Madeira mais dos seus mais que tudo. Chegámos a um ponto em que já não percebemos nada de nada, a moral tornou-se uma batata a murro.

Dá mesmo a ideia de que se está a aproximar o instante em que o capitalismo dirá à democracia: minha amiga, sei que fomos fiéis amigos, sei que fomos amantes e tivemos belas noites, sei que caminhámos juntos, mas chegou a hora de saíres da minha casa, já não és necessária. Porque repara, estou cansado. Já não temos que esconder que dormimos em camas separadas, deixa ficar a memória do que fomos um para o outro, do que nos amparámos. Já não preciso de ti. Mas não quero que morras. Podes ter o teu voto, não te quero tirar isso, mas não me venhas com mais nada que não seja um encontro simpático pelo Natal, um lanchinho vá lá. Mas vai, democracia. Faz-te à estrada e toma o cartão. Está tudo tratado. Não tens que te preocupar pois depositarei o que precisas para morrer em dignidade. Mas sem ondas, está bem? Sem histerismos bacocos.

Talvez estes estranhos dias sejam um amuo dos deuses que manipulam o tempo. Ou talvez uma vontade de a chuva ser lembrada – um bocadinho como o Sol quando aparece de Inverno. Não sabemos o que se passa, será isso? A chuva por vaidade ou maus fígados a esticar a cabeça fora da sua estação ou, por bizarro que pareça, um baile de máscaras em que Primavera, Outono, Verão e Inverno já não sabem bem quem são?

É uma crónica melancólica, despropositadamente melancólica para um final de agosto. A melancolia condena-nos a nunca conseguir abrir os braços por completo, mas protege-nos de nunca acharmos que a beleza de um gesto durará para sempre. Só um melancólico vê as coisas boas na perspetiva de que um dia deixam de ser tão boas assim, só ele tem com a tristeza uma relação cúmplice e constante em troca de nunca ser tomado por completo por ela. Um abraço de um amigo no momento certo, o estar lá quando outros viram as costas, uma declaração de amor ou um convite que prova confiança faz soltar sorrisos e espantos de alma a um melancólico. Porém, no instante a seguir, ele relativizará a beleza do fogo de artifício e fará contas ao inverno que está para vir.

Relacionado

Aguiar-Branco convoca conferência de líderes para 5.ª feira para decidir data da moção de censura do Chega

Aguiar-Branco convoca conferência de líderes para 5.ª feira para decidir data da moção de censura do Chega

“Quero avaliar com os líderes parlamentares a definição da data a partir da qual se devem contar os três dias para efeitos de levar à discussão na Assembleia da República”, afirmou José Pedro Aguiar-Branco, em declarações aos jornalistas nos Açores, uma vez que a moção de censura deu entrada “num período de interrupção dos trabalhos parlamentares”
Chega ameaça Governo com moção de censura, PS afasta e IL apela à estabilidade

Chega ameaça Governo com moção de censura, PS afasta e IL apela à estabilidade

Bianca Marques28 Ago
O Chega admite avançar já na próxima semana com uma moção de censura ao Governo, aumentando a pressão sobre o executivo. Apesar da iniciativa, a aprovação do texto é, para já, considerada pouco provável, com o PS a afastar o cenário, a Iniciativa Liberal a defender estabilidade política e o PCP a não excluir o recurso aos instrumentos parlamentares disponíveis.
Arte e política

Arte e política

O vazio político que se vive neste tempo, procura alienar os artistas da sua liberdade de criação, e da sua expressão particular de luta, não sujeita ao consumo nem ao sistema; nem tão pouco a aprisionamentos de qualquer espécie, dando expressão às necessidades do Homem e da humanidade, promovendo a transformação social face à miséria cultural e social a que se assiste.