Miguel Baumgartner, Gestor e Comentador de Política Internacional

Rir de Farage foi um erro

Farage antecipa, com a imodéstia de sempre, uma tomada da direita britânica por uma versão raivosa e simplificada do thatcherismo, sem ideias, mas com slogans.

Se Fawlty Towers tivesse tido uma temporada extra sobre política britânica, Nigel Farage teria entrado como personagem residente — talvez um cliente permanente, queixoso do pequeno-almoço continental e sempre pronto a mandar abaixo “Bruxelas”, mesmo que se tratasse apenas da couve-de-bruxelas do prato do dia. Também poderia ter brilhado em Yes, Minister, a protestar contra regulamentos europeus sobre o formato das bananas, enquanto fumava às escondidas num corredor de Whitehall. O problema é que Farage não é uma personagem cómica: é real. E está perigosamente vivo na política britânica e europeia.

Com a pinta de um vendedor de seguros de Kent ou de um capitão reformado do exército colonial, Farage aprecia cerveja morna em pubs do countryside britânico, fuma com a solenidade de quem acha que isso ainda é um acto de rebelião, e discursa com uma eloquência popular cuidadosamente ensaiada — uma mistura de pub, panfleto e indignação vintage. Há nele uma teatralidade quase cómica, mas perigosa, como se tivesse estudado num velho manual de “como parecer genuíno ao povo” impresso em 1952 e nunca revisto.

Tudo nele é encenação: o sotaque, os gestos, a rabugice patriótica. Mas é precisamente essa mise-en-scène que o torna eficaz — porque parece espontâneo, quando na verdade é apenas um excelente actor de feira política. Mas o que o torna eficaz é que, por detrás da encenação, existe uma estratégia: mobilizar o mal-estar, dramatizar a perda, e vender identidade como quem vende apólices — com promessas fáceis e letras miudinhas perigosas.

Durante anos, Farage foi tratado como um excêntrico de província com boa televisão. Mas foi ele quem impôs à política britânica a mais disruptiva mudança da sua história recente: o Brexit. Não o fez a partir de Westminster, mas dos bastidores — dos estúdios de rádio, dos palcos da indignação digital e das feiras agrícolas onde prometia “devolver o país ao povo”. Hoje regressa com o Reform UK, partido nascido dos escombros do UKIP, para disputar o espaço deixado vago pela implosão dos Conservadores.

Como sempre, aparece com o seu sorriso cínico e a retórica empacotada em chavões patrióticos. Propõe uma “reforma total” da política britânica, mas o que oferece é um manual de ressentimento com capa de Union Jack: fechar fronteiras, desfazer instituições, destruir o que resta do consenso social. O seu nacionalismo é de caricatura — uma mistura de Churchill mal lido, tablóide de domingo e teoria da conspiração reciclada no balcão do pub.

“O patriotismo é o último refúgio dos canalhas”, escreveu Samuel Johnson. Farage não apenas se refugia no patriotismo — construiu nele uma casa de campo, um programa político e uma estratégia de marketing.

As sondagens mais recentes colocam o Reform UK em rota de colisão com os Conservadores, especialmente no norte de Inglaterra, onde bastiões trabalhistas se viram órfãos de representação. A eleição de vereadores nas autárquicas foi apenas o começo. Farage antecipa, com a imodéstia de sempre, uma tomada da direita britânica por uma versão raivosa e simplificada do thatcherismo, sem ideias, mas com slogans.

A sua ligação com Donald Trump é antiga e profunda. Farage participou nas três campanhas presidenciais de Trump — 2016, 2020 e 2024 — como conselheiro informal, embaixador oficioso da nova direita anglo-americana e especialista em indignação. Ambos partilham a mesma obsessão pela soberania, a mesma desconfiança pelas instituições multilaterais, e a mesma arte de transformar frustração em espectáculo. Um é o reflexo grotesco do outro.

Este alinhamento deve alarmar seriamente a Europa. Com Donald Trump reeleito para um segundo mandato, e já a exigir que os aliados europeus “paguem a sua parte” na NATO — sob pena de se verem sozinhos face a ameaças externas —, qualquer esforço coordenado de defesa colectiva encontra-se em risco. Trump ameaça impor tarifas agressivas sobre produtos europeus e, com a leveza de um imperador entediado, já insinuou que os Estados Unidos deveriam “olhar para o Canadá” como extensão natural da sua influência — um país onde, curiosamente, Carlos III também é Rei, como no Reino Unido.

Num cenário em que Londres se alinha com este isolacionismo trumpista, sob a influência de figuras como Nigel Farage, a Europa não enfrentaria apenas um parceiro difícil — enfrentaria um flanco ocidental instável, radicalizado e cada vez mais imprevisível. Mesmo fora da União Europeia, o Reino Unido continua a ser um pilar da arquitectura de segurança europeia. A sua deriva política teria consequências reais para a coesão atlântica e para a autonomia estratégica do continente.

Mas Farage não é um caso isolado. É apenas a versão britânica de um vírus político que se espalha pelo continente. Em França, Jordan Bardella — herdeiro da dinastia Le Pen — lidera nas sondagens, jovem e polido como um gestor de start-up, mas com o mesmo programa reaccionário. Em Itália, Giorgia Meloni governa com uma prudência táctica que esconde um ADN ideológico “radical”, embora se distinga por uma inteligência política que falta a muitos dos seus congéneres. Meloni compreendeu que se governa com compromissos — Farage continua convencido de que se lidera com memes e frases feitas para estampar em t-shirts.

Na Roménia, o partido AUR prepara-se para entrar no governo com um programa nacional-católico agressivo; na Alemanha, a AfD desafia a ordem constitucional e domina no leste; na Suécia e na Finlândia, os Democratas Suecos e os Verdadeiros Finlandeses participam já em coligações governativas; na Eslováquia, Fico regressou ao poder com o apoio da extrema-direita; em Portugal, o Chega alimenta-se da crise e das redes sociais, crescendo de eleição para eleição. Até na Áustria e na Bélgica, forças extremistas disputam o centro do poder com um discurso que mistura vitimização nacional e nostalgia etnicista.

A extrema-direita não é já uma ameaça potencial — é uma realidade institucional em muitos países da União Europeia. E partilham uma linguagem comum: anti-imigração, anti-UE, anti-“elite liberal”, com variações locais e o mesmo instinto de ataque à moderação democrática. Farage é um elo importante desta cadeia: um agitador profissional, carismático, incansável, que molda o debate mesmo quando não tem votos.

O que está a acontecer no Reino Unido não é apenas um rearranjo partidário. É uma mutação cultural profunda. Farage não inventou o mal-estar britânico — apenas o recolheu, destilou e vendeu engarrafado. A sua força vem da falência moral e estratégica das elites políticas britânicas, incapazes de oferecer pertença, rumo ou sequer estabilidade. E o que propõe em troca é o equivalente político de um brinde de pub às três da manhã: ruidoso, incoerente, e com cheiro a ressaca.

Durante anos, as elites europeias riram-se de Farage. Gozaram dos seus discursos no Parlamento Europeu, trataram-no como uma anedota barulhenta. Mas ele venceu. E o riso de ontem é a angústia de hoje. A resposta ao fenómeno Farage não pode ser condescendência nem histeria. Deve ser inteligência política, coragem cultural e capacidade de reconstruir um contrato democrático que inclua os excluídos sem ceder aos que os odeiam.

Farage é o fantasma do Império, a nostalgia embriagada de um poder que já não existe. Mas o perigo não é ele. O perigo é o número crescente de britânicos dispostos a segui-lo — com bandeiras, slogans e ressentimentos — para dentro de um passado que nunca foi tão glorioso como gostam de imaginar. Cabe-nos, com lucidez e firmeza, impedir que esse fantasma se torne carne — nem em Londres, nem em parte alguma da Europa.

Relacionado

Reservas de gás da União Europeia estão no nível mais baixo em 15 anos

Reservas de gás da União Europeia estão no nível mais baixo em 15 anos

Ruben Pires3 Set
De acordo com a publicação BiGo Finance o nível de reservas de gás que a União Europeia detém nesta altura deve-se a um erro de cálculo. O bloco europeu vinha adiando as compras de gás na expetativa de que o conflito no Médio Oriente, que se iniciou em fevereiro entre Estados Unidos, Israel, e Irão, tivesse um desfecho rápido, permitindo que o gás natural vindo do Qatar voltasse a passar pelo Estreito de Ormuz a um preço mais baixo. Contudo o cenário de momento não se concretizou.
Espanha obriga a documentos digitais no transporte de mercadorias a partir de outubro

Espanha obriga a documentos digitais no transporte de mercadorias a partir de outubro

Maria Teixeira Alves2 Set
Os motoristas terão de estar munidos do respetivo DeCA durante as operações de transporte de mercadorias com origem e destino em território espanhol, incluindo as operações de cabotagem realizadas por transportadores de outros Estados-membros da União Europeia. A medida representa, segundo o Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT), mais um passo na modernização do setor.