Novos dados sobre a economia da Rússia deixam claro que as sanções impostas pelo Ocidente não estão a ter o efeito esperado sobre a atividade do país: depois de a retração do PIB em 2022 ter ficado abaixo dos 3% – quando os economistas ocidentais antecipavam uma queda que poderia chegar aos 10% – a indústria russa regressou a um crescimento positivo em termos anuais, algo que também não estava na agenda dos analistas.
A agência financeira Bloomberg revelou que a indústria russa recuperou inesperadamente pela primeira vez desde o início da guerra, graças a sectores associados à produção militar, que tiveram um bom desempenho no meio do aumento dos gastos patrocinados pela invasão da Ucrânia. Uma receita que, afinal, tem pouco de novidade: o direcionamento da indústria para a atividade militar em tempos de guerra é uma opção que a economia norte-americana da década de 1940 consagrou.
Mas a recuperação industrial teve outras alavancas. Desde logo a exportação de petróleo, que o Ocidente considerou que conseguiria bloquear. Essa certeza tinha um exemplo: quando em 2018 os Estados Unidos impuseram unilateralmente (sem o acompanhamento da ONU) um embargo à compra de petróleo iraniano, o Ocidente (ou parte dele) barafustou (com a França em primeiro plano), mas acabou por enfileirar atrás da Casa Branca. Desta vez, e face aos descontos que o governo de Vladimir Putin aceitou acomodar, a China encontrou ali um negócio muito atrativo. Talvez o sector petrolífero russo tenha ganho uma exposição excessiva a apenas um cliente – mas em tempo de guerra que é que olha a minudências? Mesmo assim, Índia e Turquia também estão na fila dos compradores.
Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), os embarques totais de petróleo (petróleo bruto e derivados) aumentaram 0,6 milhões de barris por dia (mb/d) para 8,1 mb/d, com os derivados a subirem 450 mil barris, para 3,1 milhões mb/d.
As receitas recuperaram ligeiramente graças ao aumento das exportações, mas não estão nem perto do que eram há um ano, uma vez que o preço do petróleo caiu drasticamente desde então. O Ocidente fala em ‘lavagem’ do petróleo russo, mas a designação peca por inexata: as sanções não foram avançadas pela ONU, pelo que não têm força de lei internacional.
Outro dado positivo é que a produção industrial subiu 1,2% em março em relação ao ano anterior, de acordo com o Serviço Federal de Estatísticas, bem acima da queda de 1,4% esperada pela própria Bloomberg. A mineração e a extração de recursos caíram 3,6%, mas a agência não detalhou os dados de produção de petróleo.
A indústria expandiu mais de 6%, impulsionada por um crescimento de 30% em “produtos de metal acabado”, que incluem armas e munições. Computadores, eletrónicos e ótica, que os economistas dizem que provavelmente incluirão peças para aviões e motores de mísseis, bem como miras óticas e outros sistemas pró-militares, cresceram 23%.
A produção de “outros transportes”, que abrange veículos de combate, aeronaves e navios, subiu mais de 10% pelo segundo mês consecutivo. O aumento da produção militar começou em fevereiro e continuou o boom dos gastos públicos no início do ano que, segundo as autoridades, estão relacionados com contratos não especificados.
Os dados sobre a produção militar são um segredo de Estado, mas economistas dizem que o sector tem sido um dos mais resilientes desde que a invasão foi lançada há mais de um ano. O presidente Vladimir Putin disse repetidamente que as fábricas de armas estão a trabalhar dia e noite para atender à procura.
A resistência da economia russa está a forçar muitos analistas a reverem as contas e a colocarem a hipótese de a Rússia apresentar um crescimento positivo da sua economia no final de 2023. Ou seja, apesar das sanções leoninas e da guerra, o PIB da Rússia pode avançar este ano em cerca de 1%, enquanto em 2024 pode recuperar os níveis anteriores ao início da guerra.