A ideia de uma Europa a duas velocidades marcou as discussões que antecederam a passagem ao euro. À época, a assimetria económica que era patente entre um grupo de países mais desenvolvidos e competitivos do centro e Norte da Europa (o chamado core) e países menos produtivos e com custos unitários do trabalho mais altos na Europa dita do Sul, inquietava os mais céticos, levando-os a advertir para os perigos de uma política monetária única.
E, se a analogia com a figura mitológica de uma hidra com duas cabeças e com uma essência autodestrutiva, ensombrou a génese do projeto de integração monetária europeia, este avançou, ancorado na convicção de que as forças centrípetas da política comum se sobreporiam às suas forças centrífugas.
Esporadicamente, a realidade económica insiste em contrariar os otimistas, como teima em acontecer com a economia portuguesa. Começando pela inflação, o mais recente calcanhar de Aquiles da política monetária, Portugal foi o país da zona euro onde os preços mais subiram entre fevereiro e março. Segundo o INE, o índice de preços harmonizado subiu 2% no nosso país contra 0,9% na média dos 20 estados-membros da zona euro, o dado mais preocupante foi sendo a contribuição que os bens alimentares tiveram para as pressões inflacionistas.
Nenhuma subida das taxas de juro de referência a ser perpetrada pelo Banco Central Europeu será capaz de responder às assimetrias que assolam a zona euro nesta matéria. Pior, o seu impacto sobre o endividamento das populações europeias será sempre díspar, afetando sobretudo aquelas cuja opção por empréstimos com taxas de juro variáveis, predomine. Sim, Portugal e outras economias da periferia.
E os indicadores da economia real também teimam em não dar tréguas – o índice de competitividade regional publicado pelo Eurostat, que mede a capacidade das regiões da União Europeia de atraírem pessoas e empresas, dá conta da mesma divergência. Das sete regiões (NUT-2) que constituem Portugal, apenas a Área Metropolitana de Lisboa, com um índice de competitividade de 109,9, se encontra acima da média europeia, as restantes salientando-se pela negativa.
Na Europa, as regiões mais competitivas situam-se nos países que compõem o core, como a Alemanha, a Áustria, a Bélgica, o Luxemburgo e os Países Baixos, a que se juntam a Dinamarca e a Suécia, enquanto nos países da periferia se encontram as regiões com um índice de competitividade abaixo da média.
Também a este nível, nem a política monetária única nem sobretudo as políticas europeias de coesão foram eficazes a eliminar as disparidades que existem entre estes países e regiões europeias.
É inegável que, ao fim de 24 anos de moeda única, a União Europeia se organizou para tentar ultrapassar duas crises graves, a crise financeira e a crise pandémica, e que hoje faz um esforço de articulação para combater a subida da inflação. Mas o espectro da Europa a duas velocidades não foi ultrapassado, nem sobretudo o limite de velocidade que parecer ter sido imposto à Europa do Sul.