Portugueses querem mais cooperação internacional e políticas mais justas para os países em desenvolvimento

Esta visão, expressa em dados recentes, é particularmente relevante para países como a Guiné-Bissau e Cabo Verde, que beneficiam da cooperação portuguesa e europeia.

Portugueses querem mais cooperação internacional e políticas mais justas para os países em desenvolvimento
economia portuguesa

Dois estudos promovidos pela FEC – Fundação Fé e Cooperação e pelo IMVF – Instituto Marquês de Valle Flôr revelam que a sociedade portuguesa está fortemente alinhada com valores de solidariedade global e desenvolvimento sustentável. Esta visão, expressa em dados recentes, é particularmente relevante para países como a Guiné-Bissau e Cabo Verde, que beneficiam da cooperação portuguesa e europeia.

Segundo a sondagem nacional “O que pensam os portugueses sobre Desenvolvimento Global?”, coordenada pela FEC, 83% dos portugueses defendem que o mundo precisa de mais cooperação entre países para resolver problemas globais, como as alterações climáticas, a fome e os conflitos armados. Mais de metade (54%) afirma que é importante que Portugal se empenhe em apoiar os países mais vulneráveis, como os da África lusófona.

Quando questionados se Portugal deveria apoiar países com pobreza extrema, 66% estão a favor, e 55% também apoiam o auxílio a países em emergências humanitárias. Sobre o perdão de dívidas aos países mais pobres por parte de Portugal, 68% concorda com o perdão, desde que se assegure o compromisso de usar os fundos para desenvolvimento e redução da pobreza (48%). 70% dos portugueses concordam que a União Europeia deve eliminar práticas que prejudiquem o desenvolvimento sustentável de outros países.

A maioria dos portugueses reconhece que o desenvolvimento global é também do interesse de Portugal, refletindo uma visão interdependente do mundo. Cerca de três em cada quatro inquiridos concorda ou concorda totalmente que a União Europeia deve insistir para que projetos financiados tenham a participação e consentimento das comunidades locais afetadas. A maioria (74%) concorda que a União Europeia deve redirecionar os fundos de ajuda para apoiar agricultores familiares e práticas agrícolas que ajudem os países mais pobres e combatam a fome. Estes resultados evidenciam uma opinião pública favorável à continuidade, e até ao reforço, das políticas de ajuda ao desenvolvimento e cooperação internacional, particularmente com os países da lusofonia.

O estudo “Podemos arriscar a incoerência?”, também promovido pela FEC e IMVF, alerta para os riscos de políticas nacionais e europeias que contradizem os objetivos do desenvolvimento sustentável (ODS). Os principais destaques incluem que Portugal, apesar dos avanços, continua a aplicar políticas internas e externas que contradizem os princípios da justiça global, como o apoio a práticas comerciais injustas, políticas migratórias restritivas ou acordos económicos desequilibrados.

O documento chama a atenção para os impactos negativos de decisões políticas que, embora tomadas no plano nacional ou europeu, têm consequências diretas e desproporcionais em países em desenvolvimento. Estas incoerências políticas prejudicam diretamente países como a Guiné-Bissau, onde o acesso a bens essenciais, mercados justos e financiamento sustentável depende de decisões tomadas nos centros de poder da Europa.

O relatório apela a uma Coerência das Políticas para o Desenvolvimento Sustentável (CPDS) — conceito que propõe alinhar todas as políticas (económicas, comerciais, ambientais, fiscais, migratórias) com os direitos humanos, a justiça global e a erradicação da pobreza. Sem esse alinhamento estrutural, o contributo de Portugal e da União Europeia para os ODS continuará a ser fragmentado e, em muitos casos, contraditório com os seus próprios discursos e compromissos internacionais.

Os dois estudos mostram também que os portugueses valorizam a educação para a cidadania global e querem estar informados sobre o impacto das decisões políticas no mundo. Acreditam que a solidariedade deve ser expressa não só através da ajuda financeira, mas também na forma como Portugal se posiciona no comércio, no ambiente, na migração e nas relações internacionais.

A FEC – Fundação Fé e Cooperação é uma Organização Não-Governamental para o Desenvolvimento, que promove o desenvolvimento humano integral. Criada em 1990, atua atualmente em Angola, Guiné-Bissau, Moçambique e Portugal em áreas como Educação, Direitos Humanos, Segurança Alimentar, Capacitação Organizacional e Proteção Social.

Fundado em 1951 como uma instituição privada de utilidade pública, o IMVF é uma Fundação para o desenvolvimento e a cooperação. Iniciou a sua atuação como ONGD em 1988, em São Tomé e Príncipe. A partir da década de 1990, alargou a sua intervenção a outros países, maioritariamente lusófonos, e diversificou as suas áreas de atuação. Os resultados alcançados tornaram o IMVF uma organização de referência nos domínios da cooperação para o desenvolvimento, da cidadania global e da reflexão sobre o desenvolvimento.

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