“Que tempos são estes, que é necessário defender o óbvio?”, Bertolt Brecht
Quando a grande parte das empresas e Instituições perseguem a eficiência para poderem apresentar rácios de produtividade cada vez mais interessantes, quer seja na evolução própria quer seja na comparação com os seus pares, parece que existem algumas (muitas) que não querem vislumbrar o verdadeiro caminho para o sucesso.
Debruço-me hoje sobre o ensino, particularmente sobre a sua vertente universitária.
Todas as universidades querem ter os melhores alunos, mas para que estes consigam retirar das suas competências o melhor e exponenciar o seu saber, é necessário ter (obviamente) bons professores, que lhes ensinem os conteúdos programáticos de forma o mais perceptível,, para que ao saírem da Escola e entrarem no mundo do trabalho, estejam preparados de forma excelente. Assim, não só a Escola cumpriu o seu objectivo principal – transmitir o saber –, como a própria Instituição irá capitalizar no futuro estas competências, na adesão de mais e qualificados alunos.
Mas, para que isto aconteça, é necessário não só que a Escola tenha professores competentes na transmissão do saber, mas também que estes se encontrem motivados. E é nesta relação que muitas universidades falham.
De acordo com o Sindicato Nacional do Ensino Superior (SNESup), no ano passado, a taxa de precariedade na carreira docente no Ensino Superior rondava os 42% e entre os investigadores rondaria os 70%. Quer isto dizer que muitos dos docentes do Ensino Superior não passam de uns “diaristas” (como dizem os brasileiros) ou “homens-a-dias” – a forma portuguesa mais prosaica.
Com contratos de prestação de serviços (vulgo recibo verde), sem qualquer garantia de no ano seguinte terem colocação; sem direito a qualquer dos subsídios (férias e Natal); sem direito a férias pagas e ainda com a agravante de, na eventualidade de alguma falta (a não ser compensada), lhe ser retirado o valor respectivo no final do mês.
Adianta ainda o mesmo SNESup que há um conjunto vasto de professores universitários que aos 50 anos, e com mais de 20 de carreira, continuam nesta situação de grande precariedade – “diaristas”! Ninguém entende esta situação. Se não servem, se não têm um desempenho de excelência, por que razão ficam tanto tempo nas Escolas? E se vão ficando, é porque as Escolas necessitam do seu trabalho e estão satisfeitas com o seu desempenho, então por que razão não criam condições para abertura de lugares de quadro para que as Instituições possam dar estabilidade a estes profissionais?
A razão é só uma – as Escolas querem galinha gorda por pouco dinheiro. Isto é, as Escolas descobriram este filão e, propositadamente, não abrem lugares de quadro, porque estes professores ficam incomensuravelmente muito mais baratos, comparados com os que estão no quadro, sendo que o nível do que lhes é exigido é igual àqueles que ganham três ou quatro vezes mais.
Enquanto este modelo for permitido pela lei que rege o Ensino Superior, muitas Instituições vão “empurrando com a barriga” e fingindo que nada se passa, quando, na realidade, a implicação que tem para os alunos este modelo de ensino é nefasto e em nada os beneficia. Porque é óbvio, um professor “diarista” tendo as mesmas responsabilidades que um seu colega do quadro, não pode estar satisfeito, nem ter os mesmos níveis de motivação. Portanto, em minha opinião só existe uma medida séria que deveria ser tomada: se as Instituições necessitam desses docentes, que sejam colocados no quadro da Escola, caso não necessitem ou que alguns docentes não tenham um desempenho de excelência, há que rescindir os contratos.
Percebo que algumas Instituições se rejam por princípios economicistas. Como economista percebo esta ideia, no entanto, e no que toca ao ensino, o mesmo deve ser exclusivamente direccionado e com uma única preocupação – transmissão de saber. E aqui confrontam-se duas visões do ensino – a visão social do ensino e a visão economicista do ensino, sendo que é esta última que produz mais “diaristas”, mais excluídos, mais desmotivados e mais marginalizados, daquilo que deve ser um ambiente académico inclusivo.
E não se deixem iludir, pois a visão economicista do ensino só é alimentada por aqueles alunos que não conseguem notas suficientes para entrarem em estabelecimentos de outra dimensão e prestígio, “refugiando-se” na única alternativa que lhes resta, o que quer dizer, que a visão economicista do ensino nunca conseguirá atrair os melhores.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.