André Macedo

O ovo da serpente

Nós, europeus, somos parceiros, sócios e partilhamos princípios, problemas e uma história comum. É precisamente esta história partilhada que exige cautela e diálogo.

A verdade é que a União Europeia não tem alternativa senão armar-se até aos dentes para ocupar o espaço deixado vago pelos Estados Unidos. A ameaça russa está à porta e não permite hesitações. Ainda assim, esta radical alteração de rumo é demasiado importante e tem efeitos tão profundos e duradouros que exige reflexão e vigilância. É uma ótima notícia que os líderes europeus tenham finalmente perdido a boleia dos Estados Unidos – devemos às várias administrações americanas um genuíno agradecimento por nos terem defendido ao longo de mais de sete décadas.

Venderam-nos armas, o que os beneficiou, e também nos arrastaram para guerras evitáveis, é verdade – mas quem vai no lugar do passageiro tem pouca margem para decidir o caminho e a troca foi-nos favorável. Mas as regras do jogo mudaram com a chegada de Trump: acabaram-se as boleias e UE tem de sujar as mãos. É aqui que convém adotar alguma prudência. Nós, europeus, temos maus fígados e, por vezes, difíceis relações de vizinhança. Somos parceiros, sócios e partilhamos princípios, problemas e uma história comum. É precisamente esta história partilhada que exige cautela e diálogo.

O desarmamento europeu não se ficou a dever a uma pulsão irreprimível dos europeus para o pacifismo – explica-se pela nossa tentação fratricida confirmada pelas duas grandes guerras. Agora que voltaremos a ter armas, é importante compreendermos os riscos desta escolha inevitável. Como a UE não tem, infelizmente, defesa própria, caberá a cada país gerir o seu arsenal. Num momento em que a extrema-direita cresce pela Europa fora, como no passado já aconteceu com a extrema-esquerda, este poder de fogo, destinado a proteger o continente, germina dentro si o maldito ovo da serpente. O risco hoje é longínquo, mas convém que não seja ignorado como foi a ameaça russa.

Relacionado

Reservas de gás da União Europeia estão no nível mais baixo em 15 anos

Reservas de gás da União Europeia estão no nível mais baixo em 15 anos

Ruben Pires3 Set
De acordo com a publicação BiGo Finance o nível de reservas de gás que a União Europeia detém nesta altura deve-se a um erro de cálculo. O bloco europeu vinha adiando as compras de gás na expetativa de que o conflito no Médio Oriente, que se iniciou em fevereiro entre Estados Unidos, Israel, e Irão, tivesse um desfecho rápido, permitindo que o gás natural vindo do Qatar voltasse a passar pelo Estreito de Ormuz a um preço mais baixo. Contudo o cenário de momento não se concretizou.