Jorge Silva Carvalho, Analista de Estratégia, Segurança e Defesa

O Método Sánchez: sobreviver é o programa

Quando a embalagem passa a definir o produto, a política deixa de ser confronto de propostas. Passa a ser gestão de percepções. É aí que a degradação se torna estrutural, e dificilmente reversível.

Pedro Sánchez não governa. Administra a sua própria sobrevivência com uma competência que, vista sem o filtro do juízo moral, merece ser estudada como fenómeno político.
O modelo tem uma lógica interna precisa. O eleitorado fiel ao projecto sanchista organiza-se em torno de três sensibilidades emocionais de alta intensidade, cada uma mobilizada por um mecanismo próprio.
A causa palestiniana fornece a cobertura moral internacional. Não se trata aqui de discutir a legitimidade da posição espanhola sobre o conflito israelo-palestiniano, que tem os seus argumentos e o seu espaço de debate sério. Trata-se da forma como essa causa é integrada numa narrativa que, em momentos de maior pressão interna, ganha uma intensidade retórica e uma utilidade doméstica evidentes. Gaza não é apenas política externa. É um calendário de gestão de crises domésticas.
A segunda alavanca é o caso Begoña Gómez. A esposa do presidente, formalmente acusada de vários crimes relacionados com corrupção e tráfico de influências, é apresentada ao eleitorado feminista como vítima de uma campanha da direita e da extrema-direita. O mecanismo é eficaz: quem questiona os factos passa a poder ser enquadrado como cúmplice da perseguição. A presunção de inocência funciona aqui sobretudo como escudo político.
O terceiro gatilho é o mais abrangente. Trump e a “ultra-direita” funcionam como categoria aglutinadora onde cabe, com elasticidade crescente, toda a oposição que incomoda: o PP de Feijóo, Milei, Ayuso, juízes, guardas civis, jornalistas. A fronteira entre direita e extrema-direita dissolve-se por conveniência, até que qualquer crítica ao executivo possa ser insinuada como cumplicidade com o fascismo. É uma operação de estreitamento do espaço político legítimo em nome da sua defesa.
Na dimensão interna, os magistrados ligados às investigações sobre o círculo de Sánchez são descritos como instrumentos da direita. O fiscal-geral condenado pelo Supremo foi defendido publicamente antes, durante e depois do julgamento. A máquina do partido foi, segundo a investigação em curso, parcialmente reconvertida para desacreditar juízes e guardas civis. Não são excessos. São componentes de um sistema que utiliza as formas da democracia para esvaziar progressivamente o seu conteúdo.
Na dimensão externa, os custos são mais graves do que o debate público reconhece. Marrocos espiou o telemóvel de Sánchez durante catorze meses, extraiu dados classificados dos seus ministros e utilizou a imigração irregular como arma de pressão híbrida sobre Ceuta. A resposta de Madrid foi ceder o Saara Ocidental a Rabat, rompendo décadas de neutralidade espanhola, sem informar o Conselho de Ministros. A investigação judicial foi travada pela ausência de vontade política em Moncloa. A questão permanece sem resposta: terá a política externa espanhola sido determinada por chantagem de um Estado estrangeiro? Nenhum governo democrático pode conviver com essa pergunta em aberto.
A ligação ao regime de Maduro segue o mesmo padrão de conveniência e opacidade. Em Barcelona, Sánchez defendia ao lado de Lula e Petro a “não ingerência” nos assuntos internos venezuelanos. No mesmo fim-de-semana, María Corina Machado, Prémio Nobel da Paz, estava em Madrid e recusou a reunião que o presidente lhe ofereceu na Moncloa. A explicação foi precisa: “A reunião de Barcelona é a demonstração de por que não é conveniente.” Acrescentou com ironia que a sua presença em Madrid “coincidindo com o Foro Progressista não foi intencional, mas sim providencial.” Uma mulher perseguida por uma ditadura recusou fotografar-se com o líder do progressismo mundial que, em simultâneo, pedia que não se interferisse nessa mesma ditadura.
O risco mais duradouro não é para Espanha. É para a esquerda europeia, arrastada para uma identidade cada vez mais moldada por reflexos de trincheira: anti-ocidentalismo automático, complacência com autoritarismos ideologicamente próximos, substituição da análise pela emoção tribal. O sanchismo não inventou essa deriva. Está a acelerá-la e a dar-lhe respeitabilidade governativa.
Quando a embalagem passa a definir o produto, a política deixa de ser confronto de propostas. Passa a ser gestão de percepções. É aí que a degradação se torna estrutural, e dificilmente reversível.

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