Filipe Alves

O inverno vem aí

Hoje, os maus alunos são aqueles países do Norte que não souberam reduzir a dependência do gás russo e que hoje querem obrigar o resto da UE a aceitar um corte de gás que terá consequências profundamente negativas para as indústrias europeias.

A situação criada pelo conflito na Ucrânia está a pôr a nu a fragilidade das vias de fornecimento de energia à Europa.

O braço de ferro com a Rússia apanhou a Europa no meio da ponte: por um lado, acreditando que o futuro será verde, não investimos o suficiente na capacidade de refinação de combustíveis, ou em vias alternativas de fornecimento de petróleo e gás que permitissem reduzir a dependência face à Rússia. Por outro, não avançamos o suficiente na transição energética e na substituição do petróleo e do gás por energias limpas.

Agora estamos presos num limbo em que não só não temos acesso aos combustíveis fósseis de que precisamos, como não temos ainda as energias renováveis que permitiriam substituir os primeiros.

É neste contexto que assistimos à proposta da Comissão Europeia para reduzir de forma significativa o consumo de energia. E que vemos países como a Suíça, onde o frio é a sério, a admitirem desligar a eletricidade durante algumas horas por dia, durante o próximo inverno.

Assistimos também a uma interessante inversão de papéis entre os países do Norte e do Sul da Europa, que em outros tempos e outras conjunturas se dividiam entre “frugais” e “gastadores”. Hoje, os maus alunos são aqueles países do Norte que a seu tempo não souberam reduzir a dependência do gás russo e que hoje querem obrigar o resto da União a aceitar um corte de gás que terá consequências profundamente negativas para as indústrias europeias.

No fim do dia, como sempre, terá de haver sensatez e um entendimento que preserve o equilíbrio e a coesão da União. O inverno vem aí e promete não ser fácil.

Relacionado