Sónia de Sá, Professora, Universidade Autónoma de Lisboa e Universidade da Beira Interior

Nem mais uma mulher morta

Temos de tornar inaceitável um número tão elevado de casos fatais de violência, que têm a sua génese na desigualdade de género e na violência de género.

Eram sete da tarde. As temperaturas não baixavam dos 35 graus centígrados. As ruas estavam silenciadas, os carros encostados às bermas, o céu laranja parecia mais baixo e os jardins mostravam-se tão sequiosos quanto os cães que se arrastavam lentamente naquela parte baixa da cidade.

A minha atenção é conduzida pelo ruído inesperado de uma mulher em prantos, que começou a gritar desesperadamente pelo filho enquanto batia a uma porta de entrada de um prédio mesmo ao lado do maior supermercado da cidade. O sufoco daquela mãe era tal que o choro gritado trouxe à janela umas largas dezenas de pessoas que assistiam, numa espécie de bancada grátis, ao sofrimento de alguém a quem tinham impedido de ver o filho e de o levar para casa.

Àquele voyeurismo indecente juntava-se a aparente tranquilidade do homem que travava aquela mulher na entrada do edifício onde estava uma criança fechada. Neste cenário de terror passava-se a ouvir com nitidez a voz de uma criança a chamar sofregamente pela mãe e também pelo pai.

Sem pensar no risco que eventualmente enfrentaria, desci a correr para auxiliar aquela mulher de quem o mundo parecia ter-se esquecido. Todos viam, todos encostavam as mãos ao rosto em visível estupefação, mas ninguém – nem vivalma – se predispôs a perguntar se aquela mãe precisaria eventualmente de apoio.

Numa tremedeira nervosa, abeiro-me de Paula (nome fictício) e pergunto-lhe como a posso ajudar. “Por favor, ligue para a polícia. Eu não consigo ver os números no telemóvel e o meu filho está ali preso”, dizia entre soluços de aflição. Liguei para o 112, enquanto via o homem que impedia a mãe de se aproximar do filho a mirar-me, esticando o polegar, deslizando-o horizontalmente no pescoço, numa evidente ameaça à pessoa que tinha decidido ajudar a mulher que estava a destratar.

Paula, esgotada de chorar e de suplicar para ter o filho nos braços, continuava a bater à porta que aquele homem desprovido de emoções faciais segurava. Só quando a polícia chegou é que, separadamente, os progenitores foram levados dali e escutados em locais distintos por dois agentes da Polícia de Segurança Pública (PSP), terminando assim o ‘espetáculo’ a que dezenas de vizinhos assistiam com alguma curiosidade mórbida, numa mise-en-scène triste, tão ou mais triste do que aquela cena de violência doméstica em espaço público.

Paula, que tinha, entretanto, o filho nos braços, era protegida pelos agentes da PSP ao mesmo tempo que sofria nova ameaça daquele progenitor que retendo o filho de ambos, com oito anos de idade, vingava a ex-mulher, que pedira o divórcio: “— Vais morrer, nem que seja a última coisa que eu faça! Não perdes por esperar!” Frases escutadas por todos os espectadores, incluindo os agentes da PSP e o próprio filho, uma criança que chorava tanto quanto a mãe e a quem tinham tirado o direito de brincar e de ser criança.

Nunca mais soube desta mãe e do seu filho, mas não há dia que não me lembre de ambos. Principalmente do pânico daquela mulher e do medo inocente daquele menino.

Mas o que falta para que consigamos afirmar convictamente “Nem mais uma!”? Temos de tornar inaceitável um número tão elevado de casos fatais de violência, que têm a sua génese na desigualdade de género e na violência de género. Juntemo-nos e recusemos aceitar como normal ver – e não agir – uma mulher gritar pelo seu filho, uma criança chorar pela mãe e um progenitor impiedoso. Caso contrário: que raio de sociedade queremos ser nós, afinal?

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