Marcus Vinícius De Freitas, Professor Visitante, China Foreign Affairs University e Senior Fellow, Policy Center for the New South

“My way or the highway”

A normalização da ideia de que os EUA podem coagir parceiros sempre que desejarem obter ganhos políticos força agora a Europa a uma escolha histórica: permanecer num modelo confortável, mas dependente, ou acelerar a construção de uma autonomia estratégica real.

A recente investida de Donald Trump contra a Europa não deve ser interpretada como mais um episódio passageiro de divergência comercial. Embora o gatilho imediato seja concreto — a disputa política em torno da Groenlândia e o reposicionamento estratégico no Ártico, onde segurança, recursos e rotas marítimas se cruzam —, o significado é mais profundo do que o pretexto do momento. O que está em curso é um exercício de coerção estratégica: o uso de tarifas e pressão económica para impor disciplina política inclusive a aliados históricos.

Trata-se da lógica do “my way or the highway” — expressão que sintetiza uma postura unilateral de comando: não se negocia, exige-se. Ou há alinhamento total, ou sobrevém punição.

Contudo, seria um erro atribuir esse padrão apenas ao temperamento volátil de Trump. O trumpismo é, em grande medida, a expressão ruidosa de uma tendência estrutural mais antiga: há décadas, Washington oscila entre tratar a Europa como parceira estratégica e reduzi-la a um teatro de apoio — um espaço geopolítico cuja função é ratificar decisões já tomadas no centro do poder imperial. Mudam os presidentes, mas persiste a suposição de que a Europa deve arcar com custos económicos, energéticos e industriais em nome de prioridades definidas do outro lado do Atlântico.

Ao tolerar — e progressivamente normalizar — esse padrão de coerção, a Europa tem se revelado menos como parceira e mais como entidade subordinada a uma potência que já não se sente obrigada a respeitar sequer os limites mínimos da reciprocidade entre aliados. A arquitetura transatlântica, concebida no pós-guerra como instrumento de segurança e prosperidade compartilhadas, vem sendo reconfigurada em uma relação hierárquica e assimétrica: Washington exige alinhamento automático e sanciona divergências por meio de instrumentos econômicos diretos.

Essa vulnerabilidade é exacerbada por um erro de fundo europeu: a substituição do realismo estratégico por uma política externa moralizada — especialmente no tratamento de Moscou. Ao transformar a geopolítica em tribunal de virtude, e não em gestão de poder, a Europa confundiu retórica com eficácia. O paradoxo resultante é claro: quanto mais rígido o discurso, menor a capacidade de ação autônoma; quanto maior a escalada retórica, maior a dependência externa — e os custos econômicos e sociais recaem sobre os próprios europeus.

A normalização da ideia de que os Estados Unidos podem coagir parceiros sempre que desejarem obter ganhos políticos força agora uma escolha histórica à Europa: permanecer em um modelo confortável, porém dependente, ou acelerar a construção de uma autonomia estratégica real — em defesa, tecnologia, energia e base industrial. Em outras palavras: ou a Europa assume o preço da emancipação, ou continuará pagando o custo silencioso da subordinação.

Para potências como Rússia e China, essa fissura representa uma oportunidade evidente. Cada tensão entre Washington e Bruxelas enfraquece a coesão ocidental, reforça a narrativa de que o Ocidente opera por hierarquias rígidas e acelera a fragmentação da ordem que ele próprio ergueu — e da qual foi o principal beneficiário nas últimas oito décadas.

O dilema, portanto, está lançado: subordinação confortável ou emancipação estratégica? A resposta definirá não apenas o futuro da Europa, mas também os contornos da próxima ordem global.

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