Moody’s aponta Portugal como âncora de credibilidade orçamental apesar de crescimento moderado

A Moody’s publicou uma nova revisão e perspetiva de crédito para o Sul da Europa sobre as condições de crédito empresarial em Itália, Espanha e Portugal. As empresas italianas continuam a apresentar, de forma estrutural, maior risco do que as suas congéneres espanholas, enquanto Portugal beneficia de maior credibilidade fiscal, mas mantém vulnerabilidades ao nível das empresas.

Moody’s aponta Portugal como âncora de credibilidade orçamental apesar de crescimento moderado
moodys_1

A Moody’s divulgou esta semana um relatório intitulado Southern Europe Credit Review & Outlook: Converging Risk, Diverging Resilience” (Revisão e Perspetiva de Crédito da Europa do Sul: Risco Convergente, Resiliência Divergente), no qual analisa o panorama de crédito na Europa do Sul, com enfoque no mercado de private credit (crédito privado) em Espanha, Itália e Portugal.

Publicado esta quinta-feira, 19 de março de 2026 pela equipa de Asset Management Research da Moody’s Analytics, o estudo é da autoria de Hanna Sundqvist (responsável pelo Crédito Privado na Europa), Njeri Njenga e David Hamilton.

O relatório conclui que a desaceleração da inflação e o pico das taxas de juro reduziram a pressão de refinanciamento e aproximaram o risco de incumprimento entre empresas públicas e privadas.

Segundo a Moody’s, os riscos de incumprimento (probability of default — PD) estão a convergir entre devedores públicos e privados nos três países. As probabilidades de incumprimento recuaram dos picos registados entre 2022 e 2023, aproximando-se gradualmente entre Espanha, Itália e Portugal.

No entanto, persistem diferenças estruturais, com os resultados de crédito cada vez mais determinados pelo nível de alavancagem, pelos perfis de financiamento e pela liquidez, em vez do ciclo macroeconómico.

As empresas italianas continuam a apresentar, de forma estrutural, maior risco do que as suas congéneres espanholas, enquanto Portugal beneficia de maior credibilidade orçamental, mas mantém vulnerabilidades ao nível das empresas.

Segundo a Moody’s, Itália apresenta empresas estruturalmente mais arriscadas, com maior alavancagem, dependência de financiamento de curto prazo e menor cobertura de liquidez, o que eleva o risco de refinanciamento. No setor imobiliário, por exemplo, a PD média das empresas italianas é cerca de 25 pontos-base superior à das espanholas. O crescimento económico em 2025 continuou limitado por baixa produtividade, investimento privado contido e desafios demográficos.

Já Espanha registou um desempenho cíclico forte em 2025, com crescimento do PIB de 2,9% (bem acima da média da zona euro de 1,2%), impulsionado pelo consumo das famílias, criação de emprego e exportações de serviços. Apesar disso, enfrenta rigidezes estruturais (desemprego elevado, produtividade fraca) e choques operacionais recentes, como ondas de calor, incêndios florestais e falhas generalizadas na rede elétrica.

Por fim, Portugal destaca-se pela forte credibilidade orçamental (saldo orçamental próximo do equilíbrio e rácio dívida/PIB em trajetória descendente), mercado de trabalho resiliente e inflação controlada. A PD das empresas públicas caiu significativamente em 2025, convergindo para os níveis das empresas privadas. Persistem, no entanto, vulnerabilidades ao nível das empresas, devido à predominância de PME, concentração no turismo e baixa produtividade.

A análise mostra assim como mesmo pequenas diferenças no risco base de incumprimento podem gerar resultados não lineares, especialmente no que diz respeito ao refinanciamento e à margem disponível nos covenants (margem de segurança que uma empresa possui antes de violar o contrato de dívida). Ou seja, a margem de segurança ou o “fôlego” financeiro que uma empresa possui antes de violar as cláusulas restritivas (covenants) de um contrato de empréstimo.

Tendências no crédito privado e perspetivas

O relatório salienta que a estabilização macroeconómica reduziu o stress sistémico, mas não eliminou as fragilidades estruturais. O crescimento no Sul da Europa continua dependente do consumo, com o investimento ainda contido e a reparação de balanços empresariais incompleta.

Para os investidores em private credit, a Moody’s recomenda maior enfoque na análise granular dos balanços das empresas — especialmente alavancagem, perfis de financiamento e buffers de liquidez —, uma vez que os riscos se transmitem agora principalmente por canais de refinanciamento, e menos pelo ciclo macroeconómico.

Ao entrar em 2026, a região apresenta a posição macrofinanceira mais estável desde a crise financeira global, com inflação aliviada e taxas de juro no pico. Ainda assim, o crescimento irregular e os riscos de downside (como choques climáticos, tarifas comerciais ou volatilidade de custos) exigem cautela.

O estudo reforça que, embora os riscos estejam mais alinhados entre os países, a capacidade de absorver choques futuros continua bastante desigual — com Espanha a mostrar maior resiliência cíclica, a Itália a enfrentar pressões estruturais persistentes e Portugal a beneficiar de fundamentos fiscais sólidos, mas limitado pela escala empresarial e pela estrutura económica.

Relacionado