Albano de Melo, Economista

“Meia dose de bom senso” precisa-se, a Inteligência artificial ainda não dá!

Por ora, a IA sabe, sobretudo, lidar com problemas específicos, mesmo complexos, em contraste com o senso comum, que é vago e não pode ser enquadrado num conjunto de regras algo rígidas.

Bastaram umas horas de amigável convívio num daquele almoços de curso de Faculdade, para me aperceber do tom entusiasmado, quase comparado à excitação de um adolescente perante a play station, com que a geração  já bem madura lá presente abordava o tema das plataformas tipo ChatGPT ligadas à inteligência artificial (IA).

Rogavam-se pragas às questões/perguntas não respondidas, e a todo um conjunto de imperfeições, mas contudo subsistia um certo ar de fascínio com a convicção de que, com o andar apressado do tempo, todo este instrumental ocupará uma posição cimeira no quotidiano. Estaremos nós, e em particular os principais agentes políticos, empresariais e culturais, suficientemente preparados para encarar uma reflexão consistente sobre as consequências de todo um novo contexto?

Tratando-se de um convívio de antigos colegas de Faculdade, é natural que se relevasse as “facilidades” de que os alunos passarão a dispor na elaboração de trabalhos (individuais ou de grupo), e mesmo de teses de mestrado e doutoramento. Pois não é verdade que podem passar, vai plataformas de IA, a dispor de textos mais ou menos estruturados, selecionadas que estejam determinadas temáticas…?

Perigoso, dirão uns, porque não se sabe de facto o que advém do esforço e criatividade do aluno, e mais perigoso ainda quando as provas de avaliação se resumem a uma prova escrita. Superável, afirmavam muitos – com razão –, advogando aquilo que pode ser considerado um “retrocesso” face à evolução recente dos modelos de avaliação, ou seja, para todas as cadeiras existiria obrigatoriamente uma prova complementar oral, fosse qual fosse a nota positiva obtida na prova escrita.

Com efeito, já vamos assistindo nos planos metodológicos atuais de algumas instituições de ensino superior (para já) a uma prioridade dada à defesa oral dos argumentos por parte dos alunos, em detrimento de perdas excessivas de tempo na leitura e avaliação do trabalho escrito apresentado. Será inevitável esse caminho!

Questão que se põe também é a da originalidade dos muitos e muitos artigos de opinião que proliferam por toda a comunicação social, indiciando a necessidade, creio eu, de um reforçado papel de analistas ao vivo nas televisões, dos podcasts, das entrevistas e debates presenciais ou online, etc. Haverá, pois, também neste domínio específico algo a reajustar.

No fundo, como sistema computacional que é a inteligência artificial, esta traduz-se na capacidade  de processar dados e automatizar tarefas mais ou menos repetitivas, assim economizando tempo e esforço de equipas de trabalho, bem como reduzindo chances de falhas e outros riscos. Diversos problemas poderão ser resolvidos até de uma forma inovadora.

Claro que a IA até pode dar bons conselhos, mas não resolve “tudo” e pode mesmo ser usada para fins menos éticos e menos recomendáveis. As capacidades de exploração irão com certeza progredir ao longo do tempo. Mas entra aqui – neste meu raciocínio vertido em texto – a necessidade de abordar uma outra perspectiva. E faço-o relembrando as insistentes referências que um administrador (aliás, um poderoso ex-ministro de um governo já distante) de um importante grupo empresarial fazia, aquando do processo de avaliação dos seus quadros diretivos.

E elas apontavam para uma diversidade de importantes itens (muitos deles mensuráveis), mas sempre com um desabafo que, no âmbito das valências a avaliar, havia uma decisiva que se lhe afigurava cada vez mais escassa: nem mais, nem menos que o bom senso nos comportamentos e decisões humanas. E o que é um facto é que a IA sabe, sobretudo, lidar com problemas específicos (mesmo complexos) em contraste com o senso comum, que é vago e não pode ser enquadrado num conjunto de regras algo rígidas.

Realmente, o bom senso não é mais do que uma capacidade intuitiva de distinguir a melhor conduta em diferentes situações específicas. É, portanto, altura de questionar: sendo a IA projetada para lidar com problemas altamente específicos, se cabe nela o “atributo” do bom senso, naturalmente vago e não enquadrado… E então questionei diretamente estas temáticas no ChatGPT, a título de curiosidade.

As respostas obtidas foram, para já, esclarecedoras e apaziguadoras, como se depreende das seguintes frases extraídas: “… no entanto, os pesquisadores da IA não têm tido sucesso em dar aos agentes inteligentes o conhecimento do bom senso que precisam para reflectir sobre o mundo”. E como complemento: “é difícil prever quando a IA incorporará o bom senso em geral”.

Apesar dos esforços dos tais “pesquisadores”, é mais do que certo que terá ainda de decorrer muito tempo, para não nos tornarmos, no limite, mais máquinas que seres humanos. Mas, entretanto, se essa demora é, a meu ver, reconfortante, valha a verdade que se diga que pelo mundo fora – e também entre nós, obviamente – grassa vezes demais uma falta de bom senso. É de facto um bem escasso, conforme dizia tranquilamente o tal administrador que acima referi.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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