António Mendonça, Bastonário da Ordem dos Economistas, Professor Jubilado

Magnifica Humanitas: inteligência e bom senso

Na Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV emerge como um dos dirigentes mais lúcidos do espaço europeu contemporâneo. E é interessante notar que a sua postura converge de forma notável com a de Mario Draghi sobre a crise económica e política da UE.

A encíclica Magnifica Humanitas constitui um notável exercício de inteligência e de bom senso num contexto de profunda irracionalidade global. Oferece uma leitura integrada da crise contemporânea – simultaneamente geopolítica, geoeconómica e civilizacional – recentrando o debate na primazia do ser humano sobre as lógicas de poder, superioridade ou domínio tecnológico.

Sem cair no proselitismo, o texto formula uma crítica incisiva às dinâmicas dominantes: a naturalização da competição entre potências, a instrumentalização da economia e a crescente militarização das relações internacionais. Ao fazê-lo, desmonta a ideia de inevitabilidade que frequentemente acompanha as leituras da ordem mundial, alertando para um défice crescente de inteligência e de bom senso nas decisões coletivas.

É neste quadro que surge a sua tese mais incisiva: no mundo atual, a guerra deixou de poder ser considerada justa. A capacidade destrutiva dos meios disponíveis, amplificada pela tecnologia e pela inteligência artificial, transforma qualquer conflito numa falência da política e da razão.

As guerras em curso – na Europa e no Médio Oriente – constituem, no seu conjunto, uma expressão paradigmática dessa falha. Deixaram de exprimir qualquer racionalidade estratégica compreensível, mas antes a incapacidade de conter a escalada e de privilegiar soluções políticas. São sinais de desordem e manifestações de ausência de inteligência prática e de bom senso que se tornam particularmente perigosas no contexto de fragmentação global e confronto acrescido que estamos a atravessar.

A mensagem é clara e traduz uma visão exigente: a persistência da lógica de confronto conduz a situações cada vez mais críticas. Por isso, a encíclica afirma a prioridade da cooperação, da negociação e do multilateralismo, propondo uma reconstrução ativa da confiança no sistema internacional.

Na Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV emerge como um dos dirigentes mais lúcidos do espaço europeu contemporâneo. E é interessante notar que a sua postura converge de forma notável com a de Mario Draghi sobre a crise económica e política da União Europeia. Ambos recusam as narrativas imobilistas e insistem na necessidade de encarar a realidade tal como ela é – e não como desejaríamos que fosse. Quer na análise das fragilidades estruturais da Europa, quer na perceção da nova centralidade da geoeconomia e da tecnologia, encontramos em ambos uma mesma atitude intelectual de rigor analítico, ausência de ilusões e sentido de responsabilidade histórica.

A encíclica remete-nos para a estupidez inteligente de Robert Musil – essa forma moderna de irracionalidade que se disfarça sob a aparência da racionalidade técnica — e lembra-nos, ainda, a reflexão posterior de Carlo Cipolla, de que a verdadeira estupidez reside na capacidade de causar simultaneamente dano aos outros e a si próprio. Muitas dinâmicas atuais – da escalada geopolítica à fragmentação económica – parecem materializar esta combinação paradoxal: sistemas altamente complexos, orientados por racionalidades parciais, mas que convergem para irracionalidades integradas e globais altamente destrutivas.

Em síntese, Magnifica Humanitas afirma que, na fase atual da crise geoeconómica e geopolítica, a escassez decisiva não é de recursos, mas de inteligência e de bom senso. E, neste contexto, afirmar que a guerra só pode ser injusta não é apenas um imperativo ético – é uma expressão de inteligência e de lucidez estratégica, condição hoje indispensável à própria sobrevivência civilizacional.

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