Fernando Pacheco, Economista

Losers!

Natal, aquela época especial em que, em França, no próprio dia 25 às três da tarde já tinham sido postos no Rakuten 500 mil novos anúncios de produtos à venda (em janeiro deverão ser quatro milhões), 600 mil no ebay no mesmo dia, triste destino para tantas prendas dadas com carinho;

Natal, aquela época especial em que, em França, no próprio dia 25 às três da tarde já tinham sido postos no Rakuten 500 mil novos anúncios de produtos à venda (em janeiro deverão ser quatro milhões), 600 mil no ebay no mesmo dia, triste destino para tantas prendas dadas com carinho; em que, em Inglaterra, milhares de camionistas passaram o Natal nos camiões, retidos na fronteira; em que o Japão anuncia um plano para atingir a neutralidade carbónica em, note-se, 2050; e em que a União Europeia e o Reino Unido chegaram finalmente a acordo sobre o Brexit, aprovado em Bruxelas pelos embaixadores nesta segunda-feira. Se é que se pode chamar acordo, pois não é claro como vai ser implementado. Agora estamos na fase dos detalhes práticos, sendo que as coisas só falham nos detalhes. Não vai ser fácil, pois este é o primeiro acordo de livre-troca na História que é negociado para reduzir liberdades, não para as aumentar. Mas a negociação foi um sucesso – como nos lembra o Failure Institute, o Cambridge Dictionary define fracasso como “a situação em que alguém ou alguma coisa não tem sucesso”, portanto, um conceito fluido com três propriedades: pode acontecer a qualquer um; pode acontecer a algo, não necessariamente a alguém; e depende do que for o “sucesso”, algo tão indefinido, relativo e volúvel quanto “fracasso”. Porém, o fracasso é universal, ao contrário do sucesso: toda a gente falhou pelo menos uma vez, e há até quem falhe todas. É o que desejamos que não aconteça com o Brexit, que permitiu à Teoria dos Jogos criar um exemplo de almanaque de uma situação lose-lose.

Repita-se, o Acordo foi um sucesso. Assim o declarou Jonhson, o mesmo que criou a confusão, e que sempre deu a entender não recear – para não dizer favorecer – um no deal. Anunciou o Acordo aos britânicos como uma vitória, um presente de Rei Mago moderno, como em “A Vida de Brian”, esse extraordinário filme dos Monty Python. Agora vai ser interessante vê-lo vender o Acordo no Parlamento, depois de querer reverter o Acordo de May, assim uma espécie de salto Axel, com a rotação para a direita pois Keir Starmer já disse que os trabalhistas o vão viabilizar “no interesse nacional”. Portanto, resta-lhe a espinhosa missão de convencer o European Research Group (que de European tem pouco) e outros dissidentes conservadores, além dos deputados da Irlanda do Norte. Acredito que o vai conseguir junto dos seus antigos camaradas, até porque não o vejo a reincarnar no século XXI Anakin Skywalker, o único que regressou do lado negro da Força. Para já, tem contra ele os pescadores britânicos e a CBI pediu um período de adaptação às novas regras, algumas só agora conhecidas e outras ainda não desenhadas em concreto. O Brexit tornou-se uma realidade com a sua passagem à fase dois, a fase teológica: vamos em frente e seja o que Deus quiser.

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