O sistema financeiro está a viver uma mudança estrutural. Novos players, como fintech, neobancos e plataformas tecnológicas trouxeram maior especialização e foco na experiência do cliente. “Em paralelo, iniciativas como o open banking e o open finance colocam o cliente no centro, dando-lhe maior controlo sobre os seus dados e permitindo que os serviços financeiros sejam integrados de forma simples e segura em diferentes plataformas digitais”, diz Rita Costa, Financial Services Managing Partner da EY.
Neste novo contexto, os bancos continuam a ser fundamentais. A sua relevância deixa de assentar apenas na oferta isolada de produtos e passa a estar cada vez mais ligada à confiança, à segurança, à solidez regulatória e à capacidade de orquestrar ecossistemas complexos, em parceria com outros players. “Não estamos perante o fim da banca, mas ela está a reinventar-se. Um sistema financeiro mais colaborativo, mais tecnológico e mais centrado nos clientes — onde a confiança continua a ser o ativo essencial”, acrescenta a especialista.
Para José Nunes, administrador da Asseco PST, as pessoas adotam tecnologia por conforto, nível de serviço, opção de escolha, entre outras razões. “Uma desconfiança inicial é ultrapassada pela conjugação de vantagens relevantes para o individuo, gerações mais velhas habituam-se e adotam, mais novas nascem dentro dela, depender dela é um efeito secundário não gerido na maior parte das vezes”, explica.
Ao longo do tempo, todos os avanços tecnológicos trouxeram benefícios, mas também novos riscos. “Tanto como nos processos que dependem de pessoas ou sistemas antes da IA, eram falíveis por erro humano ou de programação, a IA é inúmeras vezes mais complexa e com o potencial de se autoalimentar, logo passível de erros e dificuldade de monitorização muito mais complexas, mas mais uma vez será incontornável nesta fase de evolução tecnológica, e a resposta possível é através de normativos e educação no sentido da utilização responsável de IA, se será suficiente? É um caminho a percorrer como muitos outros na história da humanidade”, acrescenta José Nunes.
Num mundo cada vez mais digitalizado, a indústria financeira assume um papel central na proteção de dados sensíveis e na garantia da continuidade dos serviços. “A indústria financeira investe muito em cibersegurança, e esse investimento continuo é crucial, num cenário normal ninguém pode garantir sistemas 100% seguros, os investimentos feitos vão garantir que o impacto dos ciberataques é limitado, que não existe perda catastrófica de dados ou operações, que o downtime é encurtado, que o impacto nos utilizadores não é substancialmente relevante”, afirma o administrador da Asseco PST.
Riscos
Atualmente, o risco de crédito na praça financeira já não está concentrado apenas nos bancos. Embora continuem a ser os principais intervenientes, uma parte crescente desse risco é transferida para fundos de investimento, investidores institucionais e plataformas fintech. Ou seja, o risco está mais distribuído pelo sistema. “Isto tem duas leituras: por um lado, reduz a concentração nos bancos; por outro, aumenta a complexidade e traz riscos fora do sistema tradicional, no chamado shadow banking. Quanto à regulação, está claramente a evoluir. Os reguladores estão a reforçar as exigências e a alargar o perímetro de supervisão, incluindo fintechs e outros intermediários. O grande desafio hoje é garantir que todo este risco — mesmo fora da banca — seja transparente, monitorizado e não represente um risco sistémico”, explica Rita Costa, Financial Services Managing Partner da EY.
Hoje em dia, acrescenta a especialista, os principais riscos estão nas zonas cinzentas de responsabilização: quando quem origina o crédito, quem assume o risco e quem gere a relação com o cliente são entidades diferentes, nem sempre é claro quem responde em situações de stress. “Há também um risco regulamentar, porque atividades economicamente semelhantes continuam sujeitas a enquadramentos distintos, criando assimetrias. E, por fim, um risco de transparência, tanto para os clientes como para o próprio sistema, já que a fragmentação pode dificultar a visão global do risco acumulado. Atualmente o desafio não é travar a inovação, mas sim garantir que este modelo híbrido evolui com governação transparente, supervisão adequada e confiança, para que eficiência e estabilidade avancem em conjunto”, conclui Rita Costa, Financial Services Managing Partner da EY.