As empresas estão a lucrar com a inflação elevada. Esta é, segundo a Reuters, a conclusão a que chegaram os responsáveis políticos do Banco Central Europeu reunidos na Finlândia para discutir a situação atual. Mais, são os trabalhadores e os consumidores que suportam o ónus do aumento de preços. No entanto, se as intervenções recentes de Christine Lagarde negam a hipótese da espiral preços-salários, também continuam a ignorar a escalada dos lucros.
O crescimento continuado dos lucros das empresas é a evidência de que os preços que praticam não se limitam a refletir o aumento de custos. A Reuters replica dados do Eurostat sobre a decomposição do deflator do PIB por lucros, impostos e salários, que tornam claro que os primeiros têm sido os protagonistas no crescimento da inflação.
Um estudo do think-tank Australia Institute demonstrou que, neste país, a subida dos preços é empolada pelos lucros excessivos das empresas. Sem eles, a inflação australiana estaria em níveis aceitáveis e não teria sido necessário que o banco central subisse as taxas de juro. Nos seus tweets, Vítor Constâncio faz notar que a inflação na zona euro tem crescido acima do aumento do preço da energia e dos produtos alimentares, indiciando que as empresas extraem margens de lucro elevadas nos seus processos de transformação.
Para alguns, o fim destes comportamentos pelas empresas está para breve, sob pena de perderem quota de mercado, prevendo-se um declínio das pressões inflacionistas por esta via nos próximos meses.
Note-se que, se este vaticínio se vier a verificar, muito se deverá à contração da procura. Dados do Eurostat citados pela Reuters estimam para a Europa uma perda de poder de compra dos trabalhadores em 5% em resultado de um crescimento dos salários inferior ao da inflação. Nos EUA, segundo o website Vox, os consumidores estão a atingir a rutura. Com as poupanças que acumularam durante a pandemia a chegar ao limite, a dívida das famílias e os seus encargos começam a subir de uma forma preocupante.
E enquanto esta história se vai escrevendo preto-no-branco, o Banco Central Europeu anuncia novas subidas das taxas de juro, previstas para a reunião a ter lugar a 16 de março, e replica estas promessas para a primavera. As respostas de política económica ao problema da inflação têm confiado cegamente na resignação das famílias e sua inação perante os efeitos indesejados sobre o nível de vida.
Será assim com espanto que muitos vêm regressar em força ações de protesto e greves que pareciam esquecidos. Em Portugal, as notícias enchem-se de histórias sobre as greves dos professores e da CP. Pela Europa, os relatos são semelhantes – em França marca-se uma greve geral contra a proposta de reforma das pensões, na Grécia iniciam-se protestos após uma colisão grave entre dois comboios. Nos EUA, segundo um relatório do Bureau of Labor Statistics, as greves aumentaram em cerca de 50% entre 2021 e 2022.
As razões invocadas pelos descontentes são diversas – congelamento de carreiras, perda de direitos, incúria. Por detrás, escondem-se a inflação e a perda de poder de compra que acarreta, mas também a insatisfação com decisores políticos que escolhem sacrificar aquele que aparenta ser o elo mais fraco.
A nova mensagem é clara: não esperem o silêncio dos inocentes.