Ricardo Santos Ferreira, Subdiretor do Jornal Económico

Governar é prever

Já no século XIX, Émile de Girardin, jornalista e empreendedor francês, dizia: “Nada prever não é governar, é correr para a própria perda”.

A expressão é de Émile de Girardin, o jornalista e empreendedor francês que criou o “La Presse”, um diário para as massas, que fugiu ao círculo fechado do jornalismo para as elites. Inovador, irascível, agressivo, comprou concorrentes e chegou a despachar um rival a tiro, em duelo. Popularizou esta ideia de que o poder político não pode limitar-se a reagir aos acontecimentos. Exige-se-lhe mais, que antecipe e procure agir antes de a crise se instalar e se tornar irresolúvel.

Podia ser uma conversa de hoje. Na França de meados do século XIX era fundamental. Vivia-se a II República, um regime de vida curta, criado em 1848 e derrubado em 1851, em que se sucederam uma revolução, uma insurreição, uma guinada conservadora, um bloqueio férreo opondo presidente e parlamento e, por fim, um golpe de Estado que resultou na restauração do Império, com Napoleão III. Para Girardin, foi uma aprendizagem. A falha na antecipação podia transformar uma crise económica numa revolução, uma decisão administrativa cega numa insurreição e um conflito institucional no fim da própria República. Aconteceu tudo isso.

Mesmo sem estes extremos vividos há 175 anos em França, podíamos rebuscar esta mesma ideia de reação aos acontecimentos para descrever o que agora se passa. Não prever o impacto do aumento repentino da população nos serviços públicos ou no mercado da habitação é falhar na governação. Claro que é. Ser apanhado de surpresa pela falta de água que resulta de movimentos que não são de hoje, mas que têm anos sem que fossem enfrentados, também. Émile de Girardin defendia que um governo que se limita a reagir já chega tarde, porque já só vai procurar limitar danos. “Nada prever não é governar, é correr para a própria perda”, dizia. E há governantes que o deviam escrever mil vezes, à mão, em quadros de ardósia ou em folhas de linhas, para memorizar.

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