Isabel Souto, Strategic Business Partner, Cegoc

Formação Pública 4.0, para além da digitalização

A formação deve estar alinhada com prioridades institucionais, integrada nos processos de mudança organizacional e orientada para resultados concretos.

A transformação digital tornou-se num eixo central das políticas de modernização da Administração Pública. Nos últimos anos, assistiu-se à expansão de plataformas eletrónicas, serviços online, sistemas interoperáveis e processos automatizados. No entanto, a experiência tem demonstrado que a digitalização, por si só, não garante melhores serviços públicos. Em muitos casos, limita-se a transferir para o ambiente digital práticas administrativas concebidas para um contexto analógico.

Este é um dos principais riscos da atual agenda de modernização, o de confundir investimento tecnológico com transformação efetiva. A introdução de novas ferramentas pode melhorar a eficiência de determinados processos, mas, sem mudanças organizacionais e sem desenvolvimento de competências, o impacto tende a ser limitado.

Apesar dos avanços alcançados, a transição digital enfrenta ainda desafios relevantes. Um dos mais evidentes é o da inclusão digital. Nem todos os cidadãos dispõem dos recursos, das competências ou da confiança necessários para interagir com serviços públicos digitais. Fatores educacionais, económicos e geracionais continuam a gerar desigualdades no acesso à tecnologia. A questão que se coloca é, portanto, clara: de que forma é que se pode garantir que a digitalização dos serviços públicos não significa novas formas de exclusão?

A resposta não reside apenas na tecnologia. Uma Administração Pública cada vez mais digital enfrenta também desafios internos significativos. A adoção de novas ferramentas implica alterações profundas na forma como as organizações trabalham, partilham informação e tomam decisões. No entanto, muitas estruturas administrativas continuam assentes em modelos de funcionamento desenvolvidos num contexto anterior a esta era evolutiva.

Neste cenário, a resistência à mudança não deve ser ignorada. Muitos profissionais construíram a sua experiência num ambiente predominantemente analógico e podem encontrar dificuldades na adaptação a novas plataformas e processos. Quando a transformação tecnológica avança mais rapidamente do que a evolução das competências, o resultado tende a ser uma utilização limitada do potencial das soluções digitais.

É neste ponto que a capacitação assume um papel central. A qualificação contínua dos profissionais é essencial para que as organizações públicas possam tirar verdadeiro partido das tecnologias disponíveis. Contudo, esta capacitação não se limita à aprendizagem técnica de novas ferramentas. Envolve também o desenvolvimento de competências mais amplas, desde a literacia digital avançada à análise de dados, pensamento crítico, resolução de problemas complexos e trabalho colaborativo.

A integração de tecnologias emergentes, em que o caso mais evidente é o da inteligência artificial, reforça ainda mais esta necessidade. Estas tecnologias podem contribuir para melhorar a eficiência dos serviços e apoiar processos de decisão mais informados, mas exigem também novas competências e uma compreensão crítica do seu funcionamento, dos seus limites e das suas implicações.

Falar de Formação Pública 4.0 implica, assim, reconhecer que a transformação digital só se torna sustentável quando acompanhada por uma estratégia estruturada de desenvolvimento de competências. A formação deve estar alinhada com prioridades institucionais, integrada nos processos de mudança organizacional e orientada para resultados concretos.

A Administração Pública do futuro será inevitavelmente marcada por maior inovação, colaboração em rede e utilização de tecnologias emergentes. No entanto, a qualidade dessa transformação dependerá menos da tecnologia em si e mais da capacidade das entidades para desenvolverem as competências necessárias para a utilizar de forma eficaz e responsável. Importa ter a perceção de que o investimento em digitalização é indispensável. Garantir que as pessoas dispõem das competências para transformar essa digitalização em melhores serviços públicos é, provavelmente, o desafio mais determinante desta transição.

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