O século XXI, apesar dos conflitos atuais em Gaza e na Ucrânia, tem sido mais pacífico que os dois anteriores. As tragédias dos séculos XIX e XX deixaram marcas profundas na humanidade e na geopolítica. Impérios caíram e novos players internacionais surgiram.
A Europa ainda assim conseguiu manter a relevância, porém seu lugar de proeminência global vem declinando irreversivelmente.
A posição indecisa da União Europeia (UE) quanto à atuação em muitas das pautas globais, a subserviência de defesa europeia aos Estados Unidos e à NATO, e a inabilidade em lidar com a herança do passado colonizador têm colocado o Velho Continente numa espiral negativa de declínio e menor relevância.
Dentre os vários desafios europeus, três são particularmente cruciais. Em primeiro lugar, a insegurança energética é de fundamental importância. A Guerra Russo-Ucraniana expôs a extensão da vulnerabilidade energética da União Europeia (UE), que dependia fortemente da Rússia para o seu abastecimento de gás natural. A Rússia representava cerca de um quarto do consumo europeu total.
A UE enfrenta enormes dilemas ao tentar equilibrar segurança energética, solidariedade com a Ucrânia e os objetivos climáticos. O aumento incontrolável dos preços das necessidades básicas diárias e dos combustíveis encontrou-se com os inflexíveis sentimentos ambientalistas em relação aos combustíveis fósseis e à energia nuclear.
Em segundo, para além da pressão esmagadora causada pelo influxo de populações muçulmanas, o pluralismo cultural tem sido ditado pelas tóxicas ideologias liberais manifestadas pela maré da cultura woke e da política identitária.
O terrorismo e o populismo evidenciam um sentimento de exclusividade irracional. O colapso do sistema de valores a nível popular tem provocado uma turbulência sísmica na estatura global da UE.
Por fim, o supranacionalismo também apresenta rachaduras. A UE sofre de falta de coesão política e de solidariedade entre os seus Estados-Membros, reduzindo sua capacidade de agir como um interveniente eficaz no sistema internacional.
O contexto geopolítico é desanimador. Os recrudescimentos de movimentos radicais podem acelerar ainda mais sentimentos impróprios a um continente que já enfrentou vários momentos de destruição quase total. Isto também prejudica a preservação do estilo de vida europeu e coloca em cheque o futuro das próximas gerações. A pergunta fundamental é: “Europa, qvo vadis?”.