Ou votos de Ano Novo para Portugal
No ano de 1999 dois Professores de Stanford, nos Estados Unidos, escreveram um livro que viria a ser um sucesso de vendas intitulado “The knowing-doing gap: How smart companies turn knowledge into action”.
Resumidamente, o livro explica como os CEO e conselhos de administração de multinacionais ficam reféns de forças de inércia que os impedem de tomar ações decisivas em face de ameaças e oportunidades bem conhecidas. Este gap entre diagnóstico e execução leva a que muitas empresas comecem a divergir estrategicamente e, em última análise, entrem em falência total.
Este problema está precisamente na base dos meus votos para o novo ano: que o executivo possa surpreender (e que grande surpresa seria!) e responder de forma determinada àquilo que é absolutamente inegável: Portugal precisa de crescer de forma robusta e sustentada e, para isso, é necessário existir um plano de médio e longo prazo que reúna o consenso possível, partidário e da sociedade civil.
Precisamos de tomar decisões difíceis, mas não parece existir coragem para nada senão para manter tudo como está.
Fosse o atual primeiro-ministro português CEO de qualquer empresa, com um conselho de administração que se preze, e teria de explicar de que forma pretende levar o país a crescer de forma robusta, sustentada e inclusiva. Se assim fosse, António Costa – o CEO – estaria à procura de emprego. A não ser que o Chairman e os acionistas fossem permissivos, certo?
Não se vislumbra até agora na ação governativa uma estratégia que indique claramente, e de forma articulada, o conjunto de escolhas e apostas que melhor respondem às necessidades de crescimento económico sustentado e inclusivo de que o país necessita.
Dirão alguns: mas então não viu e ouviu o Plano de Recuperação e Resiliência? Li o plano e ouvi o autor no seu roadshow. Não consigo comentar para além de medidas avulsas. Diria um colega meu aqui de Henley: parece uma receita de bacalhau. Talvez bacalhau com todos.
Este é um problema também muito português. Sabe-se onde estão os problemas e as ameaças, mas passar do saber à ação parece ser um desafio inacreditável. A inércia, a falta de diálogo, de liderança, de mobilização e de coragem política são gritantes.
Que país queremos ser? Onde estão as reformas de que o país precisa para que consiga crescer de forma robusta, sustentada e inclusiva? Onde estão as lideranças que articuladamente nos fazem acreditar num plano que todos compreendemos, acreditamos e todos sabemos como contribuir?
Podemos acreditar num plano pouco articulado e numa equipa executiva que apresenta fraturas importantes e pouca unidade? As recentes polémicas e mudanças no executivo são péssimos sinais. O caso TAP revela um amadorismo atroz e impreparação de muita gente para assumir os cargos que ocupam.
Partimos assim para um 2023 com uma conjuntura difícil, sem uma estratégia que se perceba e em que se acredite e com uma equipa fraturada e sem energia. Com estes ingredientes o resultado não pode ser brilhante. Não temos de nos habituar a isto.
Portugal tem capacidade para muito melhor. O meu desejo para 2023 é que Portugal consiga melhorar a clareza estratégica e unidade na execução, mas também que execute e avalie de forma rigorosa os resultados.
Desejo também que as instituições e o povo sejam exigentes e que possam, com essa exigência, ajudar a trazer a clareza e a liderança transformadora que vão faltando.
Precisamos de estabilidade, mas não de estagnação.