Novos tempos e novos desafios exigem o desenvolvimento de novos métodos. Concretamente no âmbito laboral, é natural e desejável que se procurem soluções mais eficientes e equilibradas, sobretudo em áreas profissionais que não se enquadrem tão bem nas regras de trabalho convencionais, típicas das sociedades pós-industriais.
Ainda assim, o entusiasmo em torno de novidades como a do teletrabalho não deve significar que nos abstenhamos de discutir as suas vantagens e desvantagens ou que esta forma de trabalho passe a ser socialmente reivindicada enquanto suposta evolução necessária, sem atenção às particularidades de cada trabalho.
Recordemos algumas das possíveis desvantagens de trabalhar a partir de casa e que testemunhámos num passado recente.
A primeira e mais evidente está relacionada com a livre gestão do tempo, já que é muito comum que o horário derrape além dos limites que seriam cumpridos no local de trabalho, seja por excesso de zelo profissional ou por incapacidade de gestão e de auto-disciplina.
Quanto à gestão do tempo, claro que também existe o perigo inverso: o perigo de realizar muito menos horas de trabalho. Ainda assim, isso só será uma desvantagem se essa redução se materializar num recuo do desempenho pessoal e da produtividade.
Em segundo lugar, pode existir uma perda significativa a nível das relações sociais associados ao trabalho, o que pode reduzir o sentido cooperativo entre colaboradores, bem como a própria empatia e camaradagem. Enquanto a proximidade incentiva a amizade e a confiança, a distância e o isolamento social alimentam a desconfiança, o desânimo e a desarmonia entre agentes que deixam de colaborar regularmente cara a cara.
Não é por acaso que muitas empresas reconhecem a importância de promover actividades de confraternização em datas festivas para incentivar o espírito de equipa. Embora seja positivo conseguir agendar rapidamente reuniões de trabalho, poupar tempo e combustível, ou realizar eventos que reúnam pessoas geograficamente distantes, é essencial ter noção de que essas soluções eficientes não conservam todas as virtudes das relações presenciais.
A terceira desvantagem é a diluição entre o ambiente familiar e o ambiente laboral. Conciliar as duas esferas não deve significar confundi-las. Para bem do trabalho e da vida pessoal, é imprescindível que haja uma hora para cada propósito, no seu devido lugar. A plena dedicação a uma tarefa é cada vez mais dificultada pela presença permanente de estímulos dissonantes, mas a exposição a tais distracções é ainda mais irresistível em ambiente doméstico. Esta situação é particularmente complicada quando não existe possibilidade de assegurar privacidade e concentração por limitações de espaço das habitações.
A diluição entre as referidas esferas pode levar-nos ainda à questão do brio pessoal no que diz respeito ao vestuário e à postura enquanto se trabalha. A possibilidade de trabalhar em pijama ou em calções entusiasmou muitas pessoas durante a fase do trabalho remoto, podendo soar disparatado questionar a importância do conforto na privacidade do lar. Mas será que o conforto absoluto, como regra, é o aliado perfeito do bom desempenho profissional? Ou, pelo contrário, poderá contribuir para um certo desleixo com impacto psicológico a longo prazo?
De qualquer forma, estar alerta para estes aspectos pode servir de motivação para criar hábitos firmes de auto-disciplina, de brio pessoal, de combate ao sedentarismo e de distinção entre responsabilidades profissionais e vida familiar.
Por fim, mas não menos importante, podem existir alguns riscos associados ao distanciamento face às lideranças. Para além de dificultar a prestação de contas em tempo real, este facto pode levar a que cada um se sinta líder de si, apartado de uma missão colectiva e focado nos seus propósitos e métodos individuais. Por muito avessa que uma sociedade se torne à existência de hierarquias, o funcionamento de qualquer organização coesa e estável depende de uma liderança que decida, que delegue e que responsabilize.
Em síntese, uma alteração pouco ponderada das regras aplicadas à rotina laboral pode causar, não só prejuízos económicos, mas sobretudo problemas psicológicos, físicos e familiares. Tendo isso em consideração, é conveniente equacionar as particularidades de cada caso, resistindo à tentação de entender o teletrabalho como uma inevitabilidade ou avanço civilizacional, superior a outras formas clássicas de trabalho.
A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.