Economistas afastam receios da UTAO nos reembolsos da dívida

A UTAO alerta para “grande volume de reembolsos” no refinaciamento da dívida. São esperadas amortizações de 215 mil milhões de euros até 2038. Economistas ouvidos pelo JE desdramatizam.

Economistas afastam receios da UTAO nos reembolsos da dívida
Sessão Plenária com presença do primeiro-ministro, Luís Montenegro, na Assembleia da República, em Lisboa, 19 de fevereiro de 2026. ANTÓNIO COTRIM/LUSA

Portugal enfrenta uma pressão acrescida criada pelos reembolsos na próxima década, alerta a Unidade Técnica de Apoio Orçamental (UTAO), que aponta para perfis anuais de amortização entre 9 e 24,4 mil milhões de euros anuais entre este ano e 2038. Ainda assim, os economistas ouvidos pelo JE apontam para o planeamento da Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública (IGCP) e o alisamento que é feito nestas operações. É o caso de João Moreia Rato e Pedro Brinca que mostram-se tranquilos em relação a esta evolução apesar da oportunidade perdida, dizem, durante os anos de Governo de António Costa para assegurar maturidades mais longas a taxas mais baixas.

O relatório da UTAO publicado este mês olha para a dívida pública e alerta para o elevado montante que o Estado português terá de reembolsar aos credores nos próximos 12 anos, montante que corresponde sobretudo a títulos do Tesouro, mas que inclui também outras linhas do período pandémico e até da troika. Contas feitas, são 214,5 mil milhões de euros a reembolsar entre este ano e 2038.

Apesar disto, João Moreira Rato, presidente do Instituto Português de Corporate Governance (IPCG) e antigo líder do IGCP, mostra-se tranquilo com o perfil de amortizações, vendo uma “gestão normal da dívida”. Concretamente, o economista explica que, “tirando os bilhetes do Tesouro, que servem para gerir a tesouraria e liquidez do sistema, não há nenhuma data com reembolsos acima dos 20 mil milhões”, um valor que o Estado tem conseguido rolar de forma eficiente nos mercados nos últimos anos.

Os anos de maior pressão são precisamente 2026, com 24,4 mil milhões de euros, o próximo ano, com 21,9 mil milhões, e 2035, quando haverá lugar ao reembolso de 21,7 mil milhões; em sentido inverso, nestes 12 anos considerados, apenas em 2033 o montante não chega às dezenas, com apenas 9 mil milhões de euros previstos.

O grosso destes montantes prende-se com obrigações do Tesouro, com picos de 19,2 mil milhões de euros em duas linhas com maturidade fixada para 2030 ou de 16,1 mil milhões na linha que atinge a maturidade em 2028. No curto prazo, ou seja, no próximo, juntam-se os bilhetes do Tesouro, que perfazem 8 mil milhões em 2026 e mais 3,9 em 2027.
Mas nem só de títulos do Tesouro se farão os reembolsos da próxima década. A UTAO considera ainda os empréstimos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) que terão de começar a ser pagos a partir de 2032 e até 2056, num total de 3.675 milhões de euros; os 42.803 milhões associados ao Programa de Assistência Económica e Financeira (PAEF), divididos em 19.800 milhões do Mecanismo Europeu de Estabilização Financeira (MEEF) e outros 23.003 milhões referentes ao Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF) e que serão pagos entre 2026 e 2042; e vários tranches dos empréstimos SURE (Apoio Temporário para Mitigar os Riscos de Desemprego numa Emergência), que representarão mais 6.234 milhões a reembolsar entre 2029 e 2037.
Na mesma linha de João Moreira Rato, o economista Pedro Brinca não antecipa dificuldades de maior para as contas públicas mantendo-se o atual cenário “de estabilidade orçamental e havendo liquidez”. Numa situação adversa, como “numa crise de liquidez global ou recessão”, a pressão nos custos seria maior, mas há mecanismos para lidar com essa possibilidade, continua.
“Nesse cenário, o IGCP consegue preparar isso antecipando alguma emissão de dívida, para antecipar algumas dificuldades de colocação que podem surgir num destes picos”, explica.

“Erro histórico”
Ainda que esteja “totalmente tranquilo” com o perfil de amortizações, João Moreira Rato não deixa de apontar aquilo que considera ter sido “um erro histórico” dos governos de António Costa: não terem aproveitado o ambiente de taxas ultra acomodatícias para se financiar com maturidades mais longas.

“Prioritizou-se o resultado orçamental de curto prazo, emitindo maturidades mais curtas, em vez de se ter aproveitado as oportunidades históricas para emitir a pouco mais de 1% por 30 anos”, ilustrou. Como tal, e com o IGCP agora “condicionado por esta estrutura de reembolsos”, a agência terá de “ser inteligente”.

Esta tendência de redução dos prazos médios da dívida é também destacada pela UTAO. Desde 2016, este indicador tem caído “suavemente”, lê-se no relatório, e um sinal disso é a maturidade média da dívida de médio e longo prazo emitida em 2026 e até final de fevereiro, que se ficava em 9,1 anos; em contraste, igual período do ano passado viu emitir-se dívida com um prazo médio de 12,8 anos.

Convergindo com a visão de que o perfil de amortizações na próxima década “não sai daquilo que seriam as expectativas”, António Nogueira Leite relembra que um financiamento a maturidades mais longas no período pré-pandemia também levaria a preços mais altos nas obrigações. Como tal, “existe um trade-off”, mas o economista e professor universitário confia que “o IGCP, nas suas várias presidências, tenha feito bem o ‘deve e haver’ das várias opções”.

“Já tivemos perfis difíceis com níveis de dívida e com uma reputação menos construída de país respeitador. Portanto, neste momento temos mais armas perante o mercado do que já tivemos e, na altura, conseguimos refinanciar. Portanto, não vejo razão para não refinanciar – temos é que não fugir do caminho que foi seguido”, resume.

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