Dos livros à música. Como a Inteligência Artificial está a entrar na arte

A CEO da Leya defende uma legislação equilibrada e que pondere os vários interesses. Já o músico Pedro Abrunhosa é pragmático: “A máquina pode ter o léxico, mas não tem a semântica. Não lhe podemos reconhecer originalidade. É uma imitadora".

Dos livros à música. Como a Inteligência Artificial está a entrar na arte
Inteligencia Artificial Machine Learning 2

A Inteligência Artificial (IA) generativa tem entrado de rompante em todos os sectores de atividade, com maior ou menor impacto, entre os quais a arte. Autores ou líderes de empresas ligadas à criatividade dividem-se nas opiniões sobre esta tecnologia, mas é unânime a ideia que não há volta a dar nesta evolução.

“Não há retorno. A dúvida é como se vai trabalhar com a tecnologia”, sintetizou o historiador de arte Anísio Franco, diretor-adjunto do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), na conferência online Lisbon, Law & Tech 2023, promovida pela sociedade de advogados Abreu.

A CEO da Leya mostrou-se “favorável” a regulações que ponderem interesses, pelo que a comunidade editorial e literária, onde se insere, está disponível para entrar nesta discussão sobre o modelo mais adequado. Porquê? É preciso um equilíbrio face à evolução de produção tecnológica e à capacidade de regulação da mesma, afirmou.

“Nós continuamos a editar obras, como os “Os Cinco”, de Enid Blyton, que já morreu, através de autores que tentam assemelhar-se ao seu estilo. Poderia ser um paralelo com o que faz a IA”, ironizou Ana Rita Bessa, no painel “O impacto da IA generativa nas indústrias criativas”, moderado por Helder Galvão, of counsel da Abreu Advogados.

O fundador e CEO da Sound Particles deu vários exemplos de utilização de IA no cinema, como o quando a atriz Carrie Fisher, que faleceu em 2016, voltou – virtualmente – a interpretar a famosa princesa Leia do filme “Star Wars” nas películas mais recentes. Ou mesmo o facto de a voz de James Earl Jones, a do personagem Darth Vader, estar guardada pela tecnológica Respeecher e pela Disney para ser utilizada para sempre.

Nuno Fonseca, cuja tecnologia se tem destacado em Hollywood, explicou que, mesmo perante estes dois casos, há contextos diferentes: James Earl Jones deu autorização contratual para o fazer, enquanto Carrie Fisher não. “A IA consegue criar conteúdos que são completamente diferentes”, sintetizou Nuno Fonseca, advertindo que é importante que a sociedade inicie rapidamente a discussão, porque começa a ser fácil imitar obras. “A IA é arte ou não é arte?”, questionou-se o empreendedor português sobre o assunto.

Para o CEO da Sound Particles, que trabalha em várias áreas do entretenimento, o deep learning está cada vez mais próximo do funcionamento do cérebro humano. No entanto, não concorda que os softwares substituam os editores de som.

Não existe estética sem ética – Pedro Abrunhosa

O músico, compositor Pedro Abrunhosa admite que sente “fascínio” por esta que “ferramenta útil”, mas alerta que pode ser um “obstáculo” às boas práticas políticas e democráticas. “A máquina pode ter o léxico, mas não tem a semântica. Não lhe podemos reconhecer originalidade. É imitadora”, caracterizou.

“A IA, neste momento é uma janela para o desconhecido. Estamos a viver um momento de charneira até para uma questão metafísica: quando morre o artista e a sua voz permanece para que seja refeita. Claro que há problemas éticos e não existe estética sem ética”, disse o artista e presidente da Assembleia Geral da Sociedade Portuguesa de Autores.

Ressalvando que não tem interesse em ouvir Elis Regina a cantar músicas que nunca cantou ou o Freddy Mercury dar voz a uma letra com a qual não contactou, Pedro Abrunhosa lançou o repto aos juristas: “É preciso perceber como vamos poder defender a originalidade de uma máquina”.

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