José Manuel Diogo, Diretor da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira

Como Portugal pode ajudar o Brasil a salvar a economia europeia

Enquanto Portugal oferece estabilidade, acesso ao mercado europeu e uma conexão cultural única, o Brasil traz inovação, recursos e a capacidade de pensar soluções em escala global.

Portugal e Brasil possuem uma relação que transcende a história e o idioma, e que, hoje, ganha uma dimensão estratégica no cenário econômico global. Enquanto a Europa enfrenta desafios como o envelhecimento populacional, o aumento das tensões geopolíticas e a necessidade urgente de transição energética, a parceria luso-brasileira surge como uma oportunidade única para reequilibrar forças e injetar dinamismo no continente.

Portugal, com sua posição privilegiada como porta de entrada para a União Europeia (UE), pode atuar como mediador entre o Brasil e os mercados europeus. O Brasil, por sua vez, com seus vastos recursos naturais, mercado interno vibrante e capacidade de produção agrícola e energética, tem o potencial de oferecer à Europa os insumos, talentos e inovação necessários para enfrentar seus desafios estruturais.

Um dos novos pilares dessa relação é o Acordo de Mobilidade da CPLP, agora implementado plenamente por Portugal. Essa iniciativa tem permitido que brasileiros se estabeleçam e trabalhem em território português com menos burocracia, fortalecendo a economia local e contribuindo para mitigar o impacto do envelhecimento populacional na Europa. Desde 2023, milhares brasileiros ingressaram no mercado de trabalho português, especialmente em setores estratégicos como tecnologia e saúde, usando de forma inovadora uma verdadeira cidadania da língua.

Portugal também lidera na União Europeia a defesa de direitos especiais para cidadãos brasileiros, ampliando o acesso ao mercado de trabalho em outros países do bloco. Esse esforço não apenas beneficia os brasileiros, mas também posiciona Portugal como um ator chave na construção de pontes entre o Sul Global e a Europa.

Com um crescimento econômico consistente, mesmo apesar das suas contradições económicas internas – juros altos com uma inflação controlada – o Brasil é hoje uma das principais fontes de insumos para a Europa.

Os dados mais recentes apontam um aumento de 18% nas exportações brasileiras para a Europa em 2024, atingindo um total de €52 bilhões. Os principais destinos foram Portugal, Alemanha, Espanha e França, consolidando o bloco europeu como o segundo maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas da China. E embora soja, carne, minério de ferro e celulose continuem a liderar as exportações, há um movimento crescente em setores de maior valor agregado, como alimentos processados, equipamentos industriais e tecnologias limpas. Só para Portugal as exportações brasileiras cresceram 22%.

Ao mesmo tempo, o Brasil tem se mostrado um parceiro estratégico na transição energética global. O acordo firmado entre empresas brasileiras e portuguesas para a produção de hidrogênio verde é um exemplo de como essa parceria pode alavancar a agenda de sustentabilidade europeia, reduzindo a dependência de combustíveis fósseis e promovendo tecnologias limpas.

O turismo também é um setor que reflete o potencial dessa relação. Portugal recebeu mais de um milhão de turistas brasileiros em 2024, gerando €900 milhões para sua economia. Além do impacto direto no setor de serviços, essa movimentação fomenta parcerias culturais e empresariais, criando um círculo virtuoso de integração econômica e social.

A cúpula Brasil-Portugal, programada para janeiro de 2025, será o palco para consolidar essa parceria. Entre os tópicos em discussão estão o reconhecimento automático de diplomas, a criação de fundos conjuntos para inovação e o fortalecimento da integração econômica no âmbito do acordo Mercosul-União Europeia. Essas iniciativas têm o potencial de posicionar Portugal como o principal mediador de uma nova relação entre o Brasil e a Europa, promovendo um modelo de desenvolvimento que combina sustentabilidade, inclusão e inovação.

Portugal e Brasil não são apenas parceiros históricos; juntos, eles podem redesenhar o futuro econômico da Europa. Enquanto Portugal oferece estabilidade, acesso ao mercado europeu e uma conexão cultural única, o Brasil traz inovação, recursos e a capacidade de pensar soluções em escala global.

Essa colaboração não é apenas bilateral; é um modelo de como o Norte e o Sul podem trabalhar juntos, sentados à mesma mesa em pé de igualdade, para enfrentar os desafios de um mundo cada vez mais interconectado. A pergunta agora não é se essa parceria pode salvar a economia europeia, mas quando ela começará a fazer a diferença. A resposta, ao que tudo indica, já está em curso.

Relacionado

Reservas de gás da União Europeia estão no nível mais baixo em 15 anos

Reservas de gás da União Europeia estão no nível mais baixo em 15 anos

Ruben Pires3 Set
De acordo com a publicação BiGo Finance o nível de reservas de gás que a União Europeia detém nesta altura deve-se a um erro de cálculo. O bloco europeu vinha adiando as compras de gás na expetativa de que o conflito no Médio Oriente, que se iniciou em fevereiro entre Estados Unidos, Israel, e Irão, tivesse um desfecho rápido, permitindo que o gás natural vindo do Qatar voltasse a passar pelo Estreito de Ormuz a um preço mais baixo. Contudo o cenário de momento não se concretizou.