Daniel Sá, DiretorExecutivo do IPAM e especialista em marketing desportivo

Chega de penalties!

Há vários anos que existe em Portugal um vírus que vai destruindo toda a reputação e credibilidade do futebol. O vírus da suspeição.

Todos sabemos da enorme paixão que existe em Portugal pelo futebol. Todos sabemos também que nesta área a emoção domina a razão. Mas o futebol não está a seguir um bom caminho. Se olharmos para uma semana convencional verificamos que, normalmente, há um jogo da Liga NOS à sexta e que os restantes jogos se distribuem entre as tardes e noites de sábado e domingo, sobrando um jogo final para segunda. Até aqui tudo normal.

Também é normal haver dezenas de resumos nas televisões com os melhores lances e toda a cobertura de rádios, jornais e meios digitais sobre os pontos altos da semana futebolística. No entanto, há vários anos que existe em Portugal um vírus que vai destruindo toda a reputação e credibilidade do futebol. O vírus da suspeição.

Os jornais têm ex-árbitros a comentar todos os lances duvidosos. Nem sempre são da mesma opinião. Todos os canais televisivos, e são muitos, têm programas de comentário que se alongam por toda a semana, nos quais apoiantes dos principais clubes, ex-árbitros ou ex-jogadores e comentadores analisam repetições dos lances mais duvidosos até ao mais ínfimo pormenor, na tentativa de avaliar os potenciais erros dos árbitros. Com zoom. Em slow motion. Até à exaustão.

As certezas são poucas. As polémicas são muitas. As suspeições eternizam-se. Nunca se chega a conclusão nenhuma. Perde o futebol. Diminui a assistência aos jogos. Os patrocinadores afastam-se. Os adeptos divorciam-se da modalidade. Para piorar o cenário, os principais dirigentes dos clubes contribuem normalmente para alimentar ainda mais todas as suspeições relativas aos erros dos árbitros.

Não é nenhuma introdução de tecnologias de apoio aos árbitros que vai resolver este permanente estado de guerra. Este clima só se resolve com uma mudança de atitude de todos os intervenientes na modalidade, acompanhada de uma regulamentação implacável. Tal como acontece na Premier League, NBA, NFL, ATP ou em muitas outras competições desportivas de excelência.

Poeticamente, adorava que as dezenas de repetições dos lances duvidosos fossem substituídas pelas maravilhosas defesas do Iker Casillas, Rui Patrício e Ederson, pelas corridas mirabolantes do Nelson Semedo, do Bruno César e do Maxi Pereira, pelos cortes magistrais do Danilo, William Carvalho e Feijsa, pelos dribles mágicos do Salvio, Brahimi e Gelson Martins e pelos golos maravilhosos do Jonas, Bas Dost e André Silva.

O futebol é um produto que compete num mercado muito difícil. O mercado do entretenimento compete pelo tempo e dinheiro dos consumidores, e pelo investimento dos patrocinadores. As outras modalidades deliciam-se com esta inabilidade dos homens da bola. Tanta aselhice concertada só favorece estes competidores em atrair novos públicos e novos patrocinadores.

Os árbitros erram seguramente menos do que qualquer futebolista, treinador ou dirigente. Pensem nisso.

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