A Apex Partners, a gestora brasileira que escolheu Lisboa para chegar à Europa está no centro de um escândalo financeiro no Brasil. Por cá, a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários limita-se a dizer que “a CMVM encontra-se vinculada por deveres legais de sigilo profissional que a impedem de se pronunciar sobre a sua atuação em casos concreto”.
A Apex Partners abriu em 2025 o primeiro escritório internacional da Carbyne Investimentos, gestora do grupo Apex especializada em crédito privado, private equity e mercados privados, em Portugal. A própria empresa apresentou Lisboa como plataforma para captar investidores e levar para a Europa a experiência da gestora brasileira. A operação portuguesa tinha uma estratégia explícita de wealth management e distribuição de produtos de investimento, incluindo uma aposta em investidores europeus. Há inclusivamente anúncios recentes de recrutamento para funções de wealth management em Portugal.
Mas a expansão europeia da Apex Partners, apresentada em Lisboa há um ano, embateu de frente com a maior crise da história do grupo brasileiro, já que a Apex Partners e os fundos geridos pela Carbyne enfrentam uma grave crise institucional e financeira após o anúncio de “inconsistências financeiras” bilionárias e o afastamento de gestores executivos.
O caso remonta à compra de 15% das ações da CVC, maior grupo de viagens e turismo da América Latina, que, segundo as notícias dos jornais brasileiros, foi feita, não com capital próprio, mas com dinheiro que a Apex Partners geria em nome de terceiros — clientes de wealth management, subscritores de fundos, ativos sob gestão — dentro de um ecossistema de investimento que ascende a 17,5 mil milhões de reais (2,9 mil milhões de euros). Ou seja, usou património alheio para financiar uma aposta específica concentrada numa única empresa cotada.
Para convencer os investidores a entrarem nesta operação e adquirirem exposição às ações da CVC através dos veículos da Apex/Carbyne, a gestora desenhou uma estrutura assimétrica de retorno. Sob este modelo, caso as ações da CVC registassem uma valorização, o investidor retinha a totalidade dos ganhos gerados por essa subida. Por outro lado, se os títulos registassem uma queda ou estagnassem no mercado, o investidor contava com uma proteção que assegurava, no mínimo, um rendimento equivalente a 100% do CDI (Certificado de Depósito Interbancário), que serve de taxa de referência para o mercado interbancário brasileiro e funciona como uma garantia de retorno de renda fixa, explicam os jornais brasileiros.
Entretanto as ações da CVC caíram mais de 30% desde o início de 2026, tornando inviável cumprir a promessa, obrigando a gestora a tirar dinheiro da própria tesouraria para cobrir a diferença — abrindo um rombo nos cofres da gestora.
Carbyne abriu em Lisboa em julho de 2025
Em julho de 2025, a plataforma de investimentos brasileira inaugurou na capital portuguesa o primeiro escritório internacional da Carbyne Investimentos, a sua gestora de patrimónios e braço de ativos alternativos, com um marco inicial de 30 milhões de euros geridos na Europa. O projeto era ambicioso: transformar Portugal numa plataforma de investimentos para a Europa e aproximar o mercado de capitais português de empresas ainda muito dependentes do crédito bancário. Mas o escândalo financeiro deixa essa ambição em banho-maria.
A Carbyne, especializada em crédito privado, private equity e mercados privados, é parte central da plataforma de investimentos e serviços financeiros da Apex Partners. O grupo, fundado no Estado brasileiro Espírito Santo e com forte atuação no Sul e Sudeste do Brasil, chegou a anunciar mais de 17 mil milhões de reais (2,8 mil milhões de euros sob gestão e cerca de oito mil clientes.
O Grupo Apex tinha lançado a sua operação em Portugal exatamente nesse contexto de crescimento acelerado, usando Lisboa como porta de entrada para conectar o mercado de capitais português ao crescimento corporativo regional. Mas 12 meses depois, a narrativa mudou radicalmente.
Há notícias que dão conta que veículos de investimento ligados à gestora – como o BRM Carbyne Crédito Estruturado e o Carbyne Mercados Privados – sofreram suspensão de resgates por parte dos administradores e que houve a rejeição das contas pelos acionistas.
Os fundos ligados à Carbyne continuam a desvalorizar-se. O Carbyne Fundo de Investimento Multimercado Crédito Privado sofreu uma queda de 35,21% no património líquido num único dia, associada ao mark-to-market de obrigações, enquanto o BRM Carbyne Crédito Estruturado, com mais de 900 subscritores e cerca de 160 milhões de reais (16,6 milhões de euros) de património sob gestão, regista uma desvalorização superior a 70%.
Esta terça-feira foi noticiado que cerca de 300 investidores adquiriram obrigações emitidas pela Apex Partners, mas aproximadamente 75% do volume desses títulos está concentrado nas mãos de apenas 15 grandes investidores. Os títulos têm como garantia ações da BRM Apex Investimentos e da Apex Partners. As obrigações representam quase metade do passivo de aproximadamente mil milhões de reais apresentado pela Apex à Justiça.
Dívida da Apex Partners é de 985,6 milhões de reais
O escândalo rebentou no início de agosto de 2026 e tem sido noticiado pelos jornais brasileiros. Segundo as notícias, uma investigação interna detetou um rombo contabilístico e dívidas estimadas em 985,6 milhões de reais (164,5 milhões de euros), resultado de uma estratégia agressiva de expansão e de alavancagem financeira.
Na sequência da descoberta, os sócios determinaram o afastamento imediato do fundador e presidente, Fernando Antonio Kulnig Cinelli, e do administrador financeiro, Eduardo Siqueira. Ambos estão agora a ser processados pelos restantes sócios por “gestão negligente” e “má-fé”.
A defesa de Cinelli afirma que o empresário está empenhado em preservar a empresa e que o afastamento demonstra disponibilidade para esclarecer os factos com idoneidade.
Para evitar a falência imediata ou execuções em massa pelos bancos credores – como Sicoob, BTG Pactual e Daycoval – a Apex Partners obteve uma tutela de providência cautelar na Vara de Recuperação Judicial e Falência de Vitória. A medida, concedida a 7 de agosto, garante uma blindagem de 60 dias, suspendendo cobranças e bloqueios contra a empresa para que uma auditoria externa mapeie a real dimensão do problema.
A crise deixou de ser apenas corporativa e passou a atingir diretamente o património do fundador. Na segunda-feira, dia 17, o juiz brasileiro Marcos Pereira Sanches determinou o arresto de bens de Fernando Cinelli e a quebra do seu sigilo bancário, depois de terem sido identificadas transferências consideradas suspeitas para contas pessoais. A Apex diz que a auditoria interna encontrou movimentações superiores a 23 milhões de reais. Isto está ainda sob investigação e não significa que esse montante corresponda a dinheiro de investidores, segundo a imprensa brasileira.
Na decisão, o magistrado refere a “existência de um rombo bilionário na contabilidade”, embora a dimensão definitiva ainda não tenha sido oficialmente revelada.
No processo constam, entre outros elementos, transferências da ABM Partnership Investimentos e Participações para a conta pessoal de Cinelli, num total de cerca de cinco milhões de reais, sem justificação. O documento refere ainda que o ex-presidente teria, em mais de uma ocasião, movimentado ou retirado bens que poderiam ser utilizados para pagamento a credores, prejudicando o resultado do processo, avançam os jornais brasileiros.
O BTG Pactual já tinha suspendido os levantamentos de um fundo ligado à plataforma. Ainda não há definição oficial sobre perdas para clientes.
Entretanto, este mês, o BTG Pactual, histórico parceiro de distribuição da Apex, rompeu formalmente o contrato de distribuição de produtos financeiros que mantinha com o grupo pouco depois de a auditoria interna ter sido anunciada, alegando apenas uma relação comercial e não societária com a Apex.
A decisão ocorre um dia após a Apex anunciar o afastamento do fundador e então presidente, Fernando Antonio Kulnig Cinelli, e do administrador financeiro, Eduardo Siqueira. Os dois foram retirados dos cargos depois que sócios da companhia identificaram o que a empresa classificou como “inconsistências financeiras”.
O que começou em Lisboa como símbolo de internacionalização é hoje um escritório sob forte incerteza. A estrutura portuguesa, criada para ser a ponte europeia do grupo capixaba, permanece operacional, mas o congelamento de aplicações, as batalhas judiciais e a reestruturação radical em curso no Brasil colocam em suspenso o plano de fazer de Portugal uma plataforma de investimentos para a Europa.
Referir por último que esta APEX não está relacionada com a empresa que foi apresentada como parceira do Belenenses esta semana.
A APEX que se propõe a trabalhar com o clube de futebol lisboeta tem sede em Oeiras e foi fundada pelo português António Caçorino, António Felix da Costa e Pedro Felix da Costa.