A Rússia depois das sanções: gás natural a mais e dólares a menos

Cerca de um ano e meio depois do início da guerra e das sanções económicas que lhe estão associadas, a economia russa começa a dar fortes sinais de desaceleração.

A Rússia depois das sanções: gás natural a mais e dólares a menos
Bucha, Ucrânia

Mais de 18 meses depois do início da guerra e numa altura em que os efeitos das restrições às importações de energias fosseis russas estão em pleno, a economia do país invasor dá mostras de estar exangue. Na semana passada, o Banco Central da Rússia (CBR) elevou as taxas de juros em 350 pontos-base, para 12%. A razão para esta alta, acima do que os analistas esperavam, foi que o rublo encadeou meses em queda e desvalorizou abaixo da barreira psicológica do centavo de dólar. A reação não tardou a chegar e, no dia seguinte, o valor da moeda russa recuperou para 0,0106 dólar esta quarta-feira, uma alta de 6,5%.

Para os analistas, a economia russa resistiu aos efeitos da invasão da Ucrânia melhor que o esperado. O FMI, por exemplo, esperava uma contração económica de cerca de 8,5% em 2022 devido principalmente ao facto de a Rússia estar crescentemente desligada da economia global e mais particularmente da da Europa, o seu principal mercado.

No entanto, a queda limitou-se a 2,1%. Uma política fiscal conservadora e um desempenho correto das instituições financeiras de Moscovo ajudaram a moeda, depois da depreciação nos primeiros momentos da invasão, referem analistas citados pelo jornal “Cinco Dias”. Além disso, os altos preços dos produtos energéticos, principal produto de exportação da Rússia, colocou serviu de ‘remendo’ às finanças do país, que foram alimentadas por uma intensa chegada de moedas internacionais. No entanto, esses pontos fortes parecem ter desaparecido e a economia russa mostra sinais de exaustão.

O “Financial Times” destacou que o presidente russo, Vladimir Putin, falou pela primeira vez sobre a deterioração das contas russas. Putin pediu ao banco central e ao governo que façam mais para aliviar a pressão sobre os mercados financeiros e combater a inflação, que estava nos 4,3% em julho. Vladimir Milov, ex-vice-ministro da Energia no exílio, garantiu à imprensa britânica que o país vive uma “fome monetária” devido à escassa entrada de moedas internacionais. “As importações já voltaram aos níveis pré-guerra, só que agora importamos todos os bens de consumo e manufaturados da China, Turquia, Ásia Central e da Península Arábica, e não do Ocidente. E esses bens têm de ser pagos em moeda, mas ninguém quer rublos”, disse Milov.

À medida que a guerra se arrasta, os défices crescentes decorrentes do aumento dos gastos militares, da queda das receitas das exportação de energia e a crescente dependência das importações (principalmente tecnológicas), combinaram-se para enfraquecimento do rublo e da economia em geral. Em comparação com o primeiro trimestre de 2022, as receitas do orçamento federal diminuíram 11,7% e as de hidrocarbonetos 47%. Ao mesmo tempo, os gastos federais aumentaram 19,5% – com as aquisições do governo a cresceram 50,6%.

Por outro lado, a qualidade dos ganhos cambiais também está a deteriorar-se. O economista russo Igor Lipsitz explicou ao jornal local “The Insider” que, devido à interrupção dos canais tradicionais, grande parte das exportações de petróleo e gás vão agora para a Índia e para a China, que pagam em moedas que não totalmente conversíveis. “A Rússia persiste em fornecer petróleo à Índia e até aumentou as suas entregas, mas em troca recebe principalmente rúpias. O que fará com elas ainda não é claro, pois não podem ser convertidas ou negociadas no mercado cambial”, argumentou Lipsitz.

Por seu lado, o Banco Central Europeu (BCE) destacou a recusa dos bancos intermediários em facilitar transações em dirhams, depois de a Rússia pedir às refinarias indianas que liquidassem o comércio de petróleo russo na moeda dos Emirados Árabes Unidos em julho de 2022. A operação acabou por ser adiada para janeiro de 2023 devido a essa recusa. Da mesma forma, a Reuters informou no início de julho que as refinarias indianas começaram a pagar algumas importações de petróleo da Rússia em yuan chinês, enquanto as sanções ocidentais forçam Moscovo e os seus clientes a procurar alternativas ao dólar para liquidar os pagamentos.

Os pagamentos das dívidas públicas, as transações no mercado de capitais e as cotações das principais commodities, como o petróleo, são feitos em moeda norte-americana, seja dentro ou fora das fronteiras dos EUA. Desde o início da invasão, a Rússia está fora do sistema internacional de pagamentos SWIFT, o que significa que a sua moeda está isolada internacionalmente.

Por outro lado, e num primeiro momento, a Rússia conseguiu aumentar a entrada de moedas ocidentais por via da exportação de energia – num quadro em que o seu preço disparou. Mas tudo isso é passado: o preço do gás desceu quase tanto quanto subiu e o do petróleo está estabilizado.

Resumindo: os analistas esperam que as sanções impostas pelos Estados Unidos, União Europeia e seus aliados comecem a fazer mossa na economia russa – e isso possa contribuir para o fim da guerra.

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