David Moran, Embaixador do Reino Unido para a Segurança Energética e Clima

A neutralidade continua a ser o melhor caminho para a segurança energética

As respostas políticas às crises atuais não passam por abdicarmos das nossas responsabilidades climáticas. Não temos o direito de sacrificar o futuro pelo presente.

Falta pouco para a Cimeira do Clima (COP27) no Egipto. A COP26 em Glasgow foi um sucesso, mas 2022 tem sido um ano muito difícil com crises energéticas agravadas pelo conflito com a Rússia. As decisões que tomarmos agora sobre o clima e a energia irão determinar o nosso futuro. Adiar decisões teria consequências catastróficas muito piores que os eventos climáticos extremos a que assistimos hoje. Temos, pois, pouco tempo para evitar o pior.

Países, empresas, ONG e sociedade civil exigiram medidas radicais para cumprir o objetivo do Acordo de Paris de limitar o aquecimento global médio a 1,5 graus centígrados. Quase 200 países mostraram grande ambição: o Pacto de Glasgow assumiu compromissos específicos para reduzir emissões, reduzir gradualmente a utilização do carvão, proteger a natureza e as pessoas vulneráveis, reforçar o financiamento, incluindo o da adaptação aos impactos das alterações climáticas, e embarcar numa transição justa dos combustíveis fósseis para energias limpas.

Os bancos centrais e as instituições financeiras responsáveis por mais de 133 biliões de euros de ativos concordaram em realinhar-se em direção à neutralidade global. Os governos têm, assim, a responsabilidade de estimular o crescimento económico, promover a segurança energética e alimentar e proteger os cidadãos vulneráveis.

Os acontecimentos recentes tornaram tudo isto muito mais complicado. Alguns argumentam que a neutralidade é incomportável. Estão enganados. Não temos de escolher entre ação climática e crescimento económico. De 1990 a 2019, o Reino Unido reduziu as emissões em 44%, enquanto a economia cresceu 78%.

A Agência Internacional para as Energias Renováveis concluiu que, cada euro gasto na transição energética trará benefícios entre três a oito euros – ar mais limpo, energia mais barata, investimento e emprego. A melhor forma de alcançar a segurança energética, climática e a económica é mantermo-nos no caminho para a neutralidade.

A transição verde já está a acontecer. As empresas querem-na. Um estudo recente mostrou que os investimentos em energias renováveis registaram um retorno 367% superior ao dos combustíveis fósseis na última década. As oportunidades são enormes.

Assim como os custos de não descarbonizar. As respostas políticas às crises atuais não passam por abdicarmos das nossas responsabilidades climáticas. Não temos o direito de sacrificar o futuro pelo presente. O Reino Unido assumiu o compromisso juridicamente vinculativo de reduzir as emissões em 78% até 2035 (em comparação com 1990). Criámos também a Comissão Independente para as Alterações Climáticas para acompanhar, analisar e comunicar os nossos progressos.

Glasgow foi sobre inspiração e compromisso. A COP27 será sobre implementação e credibilidade. O mundo tem de perceber que há mais financiamento climático disponível e que este começa a ser de mais fácil acesso. Alguns dos principais emissores do G20 tentaram negociar uma linguagem que comprometeria os acordos Paris, Glasgow e até compromissos anteriores do G20. Não podemos recuar. A COP27 tem de reforçar o Pacto Climático de Glasgow.

Os resultados obtidos em Paris e Glasgow deram origem a uma grande coligação. O mundo precisa, agora, de ambição semelhante. Será preciso uma liderança forte de todos. A União Europeia tem um papel central, bem como a sociedade civil, os jovens, as comunidades autóctones, as empresas, os cientistas e os inovadores. Somos todos afetados pelas alterações climáticas. Todos têm voz, e o contributo de cada um faz a diferença.

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