Roberto Gaspar, Secretário-Geral da ANECRA - Associação Nacional das Empresas do Comércio e da Reparação Automóvel

A crónica de um recuo anunciado: o dia em que Bruxelas admitiu o inevitável

A transição energética exige ambição, mas também exige que não se confunda ritmo político com ritmo tecnológico. O anúncio de Bruxelas não é um ponto final. É apenas o início da revisão de uma estratégia que precisa, urgentemente, de regressar ao terreno.

«A Europa não precisa de metas impressionantes, precisa de metas que resultem.»

Nenhuma dúvida tenho de que um dos maiores desígnios da nossa geração é garantir que as gerações dos nossos filhos e netos encontrem um planeta habitável. Mas acreditar nesse objetivo não implica aceitar metas mal calibradas ou caminhos tecnicamente frágeis e inverosímeis. Como escrevi recentemente, «o compromisso ambiental é inegociável, mas a estratégia para o concretizar não pode ignorar a realidade». A decisão agora conhecida da Comissão Europeia confirma exatamente isso.

O recuo de Bruxelas na proibição total dos motores de combustão a partir de 2035 — substituindo-a por uma redução de 90% face aos níveis de 2021 — representa uma mudança profunda na política climática europeia. Mas dificilmente será o capítulo final. «Os 90% dificilmente serão exequíveis tal como estão formulados», até porque incluem mecanismos de compensação que diluem o rigor da meta. Tudo indica que esta é apenas uma etapa intermédia, a antecâmara de nova flexibilização.

A pressão política e industrial tornou este desfecho inevitável. Alemanha, Itália e grande parte do setor automóvel alertavam há muito para o desfasamento entre ambição regulatória e viabilidade económica. O abrandamento da procura por veículos elétricos, o cancelamento de modelos por vários fabricantes e as perdas financeiras significativas de alguns dos principais construtores reforçaram a urgência de rever a estratégia.

Acresce um contexto internacional impossível de ignorar. A China é responsável por mais de 30% das emissões globais, os EUA por mais de 11% e a Índia por quase 8%. A União Europeia, com pouco mais de 6%, tem insistido numa liderança solitária e normativamente rígida. O resultado estava à vista: «nenhuma política sobreviverá se colidir frontalmente com a competitividade económica do continente». O recuo anunciado é, por isso, a crónica de um desfecho anunciado — e é bom que não venha a ser também a crónica do início do declínio da maior indústria europeia.

Nada disto significa renunciar ao papel central do veículo elétrico. É, aliás, muito provável que venha a dominar a mobilidade do futuro. Mas a descarbonização não se faz por decreto; faz-se no parque real, onde os veículos continuarão, durante muitos anos, a ser maioritariamente de combustão. «Calendários legislativos não reduzem emissões; tecnologia aplicada ao parque circulante, sim.»

O caso português ilustra bem este paradoxo. Apesar dos incentivos aos elétricos, continuamos a importar mais de 120 mil usados por ano, maioritariamente de combustão e com uma idade média na ordem dos oito anos. O resultado é evidente: «o parque envelhece, as emissões sobem e o objetivo ambiental afasta-se». A intenção é correta; o efeito é o oposto do pretendido.

A transição energética exige ambição, mas também exige que não se confunda ritmo político com ritmo tecnológico. «Sem indústria forte, não há transição possível; sem uma adesão efetiva e consolidada dos consumidores, não há mudança sustentável». A revisão das metas europeias não significa abdicar do combate climático; significa reconhecer que a eficácia exige pragmatismo, diversidade tecnológica e sustentabilidade económica.

Por isso, acredito que o anúncio de Bruxelas não é um ponto final. É apenas o início da revisão de uma estratégia que precisa, urgentemente, de regressar ao terreno. A Europa não precisa de metas perfeitas no papel — precisa de metas que resultem no mundo real.

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