Filipe Morais, Professor de Governance & Reputation, Henley Business School, Reino Unido, e Partner na AMROP

Estabilidade sim, estagnação não

As recentes polémicas e mudanças no executivo são péssimos sinais. O caso TAP revela um amadorismo atroz e impreparação de muita gente para assumir os cargos que ocupam.

Ou votos de Ano Novo para Portugal

No ano de 1999 dois Professores de Stanford, nos Estados Unidos, escreveram um livro que viria a ser um sucesso de vendas intitulado “The knowing-doing gap: How smart companies turn knowledge into action”.

Resumidamente, o livro explica como os CEO e conselhos de administração de multinacionais ficam reféns de forças de inércia que os impedem de tomar ações decisivas em face de ameaças e oportunidades bem conhecidas. Este gap entre diagnóstico e execução leva a que muitas empresas comecem a divergir estrategicamente e, em última análise, entrem em falência total.

Este problema está precisamente na base dos meus votos para o novo ano: que o executivo possa surpreender (e que grande surpresa seria!) e responder de forma determinada àquilo que é absolutamente inegável: Portugal precisa de crescer de forma robusta e sustentada e, para isso, é necessário existir um plano de médio e longo prazo que reúna o consenso possível, partidário e da sociedade civil.

Precisamos de tomar decisões difíceis, mas não parece existir coragem para nada senão para manter tudo como está.

Fosse o atual primeiro-ministro português CEO de qualquer empresa, com um conselho de administração que se preze, e teria de explicar de que forma pretende levar o país a crescer de forma robusta, sustentada e inclusiva. Se assim fosse, António Costa – o CEO – estaria à procura de emprego. A não ser que o Chairman e os acionistas fossem permissivos, certo?

Não se vislumbra até agora na ação governativa uma estratégia que indique claramente, e de forma articulada, o conjunto de escolhas e apostas que melhor respondem às necessidades de crescimento económico sustentado e inclusivo de que o país necessita.

Dirão alguns: mas então não viu e ouviu o Plano de Recuperação e Resiliência? Li o plano e ouvi o autor no seu roadshow. Não consigo comentar para além de medidas avulsas. Diria um colega meu aqui de Henley: parece uma receita de bacalhau. Talvez bacalhau com todos.

Este é um problema também muito português. Sabe-se onde estão os problemas e as ameaças, mas passar do saber à ação parece ser um desafio inacreditável. A inércia, a falta de diálogo, de liderança, de mobilização e de coragem política são gritantes.

Que país queremos ser? Onde estão as reformas de que o país precisa para que consiga crescer de forma robusta, sustentada e inclusiva? Onde estão as lideranças que articuladamente nos fazem acreditar num plano que todos compreendemos, acreditamos e todos sabemos como contribuir?

Podemos acreditar num plano pouco articulado e numa equipa executiva que apresenta fraturas importantes e pouca unidade? As recentes polémicas e mudanças no executivo são péssimos sinais. O caso TAP revela um amadorismo atroz e impreparação de muita gente para assumir os cargos que ocupam.

Partimos assim para um 2023 com uma conjuntura difícil, sem uma estratégia que se perceba e em que se acredite e com uma equipa fraturada e sem energia. Com estes ingredientes o resultado não pode ser brilhante. Não temos de nos habituar a isto.

Portugal tem capacidade para muito melhor. O meu desejo para 2023 é que Portugal consiga melhorar a clareza estratégica e unidade na execução, mas também que execute e avalie de forma rigorosa os resultados.

Desejo também que as instituições e o povo sejam exigentes e que possam, com essa exigência, ajudar a trazer a clareza e a liderança transformadora que vão faltando.

Precisamos de estabilidade, mas não de estagnação.

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