António Mendonça, Bastonário da Ordem dos Economistas, Professor Jubilado

A maior herança americana: romper com as ortodoxias

Ao celebrar os 250 anos da sua Independência, os Estados Unidos oferecem uma oportunidade para recordar que a sua influência no mundo foi muito mais profunda do que os acontecimentos recentes parecem sugerir.

Ao celebrar os 250 anos da sua Independência, os Estados Unidos oferecem uma oportunidade para recordar que a sua influência no mundo foi muito mais profunda do que os acontecimentos recentes parecem sugerir. Essa influência exerceu-se, em particular, no domínio da teoria económica e da construção institucional, através da capacidade de inovação e de rutura demonstrada por Marriner Eccles durante as quase duas décadas em que esteve ligado à Reserva Federal. Primeiro como membro do Conselho de Governadores (1934-1936), depois como Presidente (1936-1948) e finalmente de novo como membro do Conselho (1948-1951).

Eccles assumiu funções quando os Estados Unidos enfrentavam a mais profunda crise económica da sua história. Numa época dominada pelas ideias do equilíbrio automático dos mercados, da neutralidade da moeda e do primado dos orçamentos equilibrados, defendeu que a Grande Depressão resultava da insuficiência da procura agregada, da excessiva concentração da riqueza e da incapacidade do sistema económico para sustentar níveis adequados de consumo e investimento. As suas posições anteciparam várias das ideias que viriam a integrar a macroeconomia keynesiana.

A sua contribuição mais decisiva terá sido a transformação da Reserva Federal numa autoridade monetária moderna, com capacidade de intervir na estabilização da economia e de assegurar o funcionamento do sistema financeiro. A reforma da Fed de 1935 representou uma rutura fundamental com a ortodoxia anterior e lançou as bases do modelo contemporâneo de banco central. Em coerência com esta visão, Eccles participou também na construção da ordem monetária internacional do pós-guerra associada a Bretton Woods, que deu origem ao FMI e ao Banco Mundial e sustentou uma das fases mais prolongadas de crescimento económico mundial e europeu.

Décadas mais tarde, estas referências podem ser identificadas na atuação de Mario Draghi durante a crise da Zona Euro. Perante os desafios de 2008-2011, Draghi rejeitou uma interpretação estritamente conservadora da função de banco central e introduziu instrumentos de política monetária não convencional que alteraram profundamente a atuação do BCE. O compromisso de fazer whatever it takes para preservar o euro representou uma rutura comparável à protagonizada por Eccles nos anos 1930. Em ambos os casos, a resposta à crise exigiu ultrapassar os limites da ortodoxia dominante e adaptar as instituições às exigências da realidade.

A comparação entre Eccles e Draghi evidencia uma das principais lições da história económica moderna: as grandes crises exigem não apenas novas políticas, mas também novas referências e novas conceções do papel das instituições. Eccles ajudou a transformar a Reserva Federal numa autoridade macroeconómica nacional; Draghi contribuiu para afirmar o BCE como verdadeiro banco central de uma união monetária.

Neste sentido, a celebração dos 250 anos da Independência dos Estados Unidos pode também ser entendida como uma homenagem à capacidade americana de produzir referências, instituições e lideranças que influenciaram decisivamente a evolução da economia mundial. De Alexander Hamilton a Marriner Eccles, de Bretton Woods ao sistema financeiro contemporâneo, os Estados Unidos constituíram um dos mais importantes laboratórios de inovação económica dos últimos dois séculos e meio. A sua maior contribuição talvez não resida numa doutrina específica, mas na capacidade de questionar ortodoxias estabelecidas e construir respostas inovadoras aos desafios de cada época – uma lição que a Europa devia ter como referência na situação atual.

Relacionado