A Europa encontra‑se num ponto de viragem crítico para o futuro da sua base industrial. Os dados apresentados no European Industry Summit deste ano não deixam margem para dúvidas: “83% dos indicadores de competitividade da UE não melhoraram ou deterioraram‑se” e apenas “11% das recomendações estratégicas foram implementadas”. Estes números, retirados do Antwerp Declaration Monitoring Framework, revelam uma tendência estrutural que ameaça a capacidade produtiva europeia e coloca em risco setores essenciais para a economia e para a autonomia estratégica do continente.
Entre esses setores está o das embalagens metálicas, que represento enquanto presidente da Metal Packaging Europe. Este é um setor que produz mais de 200 mil milhões de unidades por ano, opera cerca de 650 fábricas e emprega mais de 60.000 trabalhadores diretos. É uma indústria altamente circular, com taxas de reciclagem muito relevantes a nível mundial, e que serve cadeias de valor críticas como a alimentação, as bebidas, os aerossóis, a saúde e a logística. É, portanto, um pilar industrial que combina sustentabilidade, inovação e relevância económica.
Contudo, a robustez deste setor não o torna imune ao ambiente adverso que hoje se vive na Europa. Como referi no Summit, “a indústria europeia está a operar num contexto cada vez mais assimétrico face a outras regiões do mundo. Custos de energia persistentemente elevados, incerteza regulatória e falta de apoio ao comércio global justo estão a minar a capacidade de investimento e inovação das empresas industriais na Europa”. Esta assimetria está a corroer a competitividade e a afastar investimento, enquanto outras regiões do mundo avançam com políticas industriais agressivas, energia mais barata e condições de financiamento mais favoráveis.
Um dos exemplos mais evidentes desta distorção é o impacto das medidas protecionistas aplicadas ao setor do aço. Embora compreensíveis na defesa da produção primária, estas políticas ignoram o peso muito superior do setor transformador, que reúne milhares de empresas, sustenta um volume muito mais significativo de emprego e gera maior valor económico. Ao desconsiderarem esta realidade, acabam por penalizar toda a cadeia de valor: quando o custo das matérias‑primas aumenta artificialmente, a competitividade das indústrias que dependem do aço é imediatamente afetada. O resultado é uma perda de capacidade produtiva e de investimento, num momento em que a Europa enfrenta concorrência global cada vez mais intensa e agressiva. Inclusive, este tipo de medidas pode levar a uma deslocalização significativa do tecido Industrial para fora da Europa, que é exatamente o contrário do que seria desejável.
Portugal é um caso paradigmático desta vulnerabilidade. Só a Colep Packaging, um dos principais players europeus na indústria de embalagens metálicas registou vendas, em 2024, na ordem dos 149 milhões de euros e emprega cerca de 800 pessoas. Esta indústria é um dos setores mais expostos aos custos energéticos e à concorrência internacional. Se a Europa não agir rapidamente, países como Portugal serão dos primeiros a sentir o impacto da perda de competitividade industrial.
É neste contexto que subscrevo, juntamente com muitos outros líderes da indústria, a Antwerp Call to Action, um apelo urgente à adoção de medidas industriais de emergência. O objetivo é claro: reduzir os custos de energia, garantir condições de concorrência equitativas no comércio internacional e valorizar os produtos fabricados na Europa. Não se trata de protecionismo, mas de assegurar que a indústria europeia tem condições mínimas para competir, investir e inovar.
Num contexto geopolítico de grande incerteza, uma coisa é certa: “não existe uma Europa resiliente, nem segura, nem forte, sem uma indústria europeia forte”. A indústria das embalagens metálicas quer continuar a ser parte da solução — contribuindo para a sustentabilidade, para a autonomia estratégica e para o emprego qualificado. Mas para isso precisa de um quadro político que reconheça o seu valor e que crie condições para que possa prosperar. A Europa tem de decidir se quer ser apenas um mercado ou se quer continuar a ser um continente industrial. O tempo para essa decisão é agora.