Durante demasiado tempo, a Europa viveu como se a história tivesse sido suspensa. A prosperidade parecia garantida e o mundo disposto a tolerar um continente concentrado em regulamentar pormenores em vez de moldar o futuro. Sob o guarda-chuva militar americano e o gás barato russo, a Europa tornou-se uma versão confortável de si própria: rica e envelhecida. Convenceu-se de que podia delegar a sua segurança e energia sem custos estratégicos.
Mas o cerco apertou. E o despertar, embora tardio, tornou-se uma questão de sobrevivência. A guerra na Ucrânia marcou o fim definitivo dessa era de indolência com toques de cinismo. Não foi apenas um choque militar: foi o colapso de uma ilusão. A Rússia conduz há anos uma guerra híbrida permanente, feita de desinformação e corrosão interna das democracias. Essa estratégia teve resultados iniciais, alimentando divisões e governos permeáveis ao Kremlin, mas a maré começa a inverter-se.
As instituições europeias revelam hoje uma capacidade de antecipação renovada e a resiliência diante da chantagem energética surpreendeu os céticos. Sob pressão de uns Estados Unidos que já não aceitam financiar sozinhos a NATO, a Europa percebe que a sustentabilidade do seu modelo social exige músculo militar e autonomia estratégica. Apesar das críticas à burocracia, a União Europeia permanece o mais eficaz instrumento de estabilidade que o continente já criou.
Mais do que um bloco comercial, a União funciona como um exoesqueleto de superpotência económica que amplifica a voz de todos os seus Estados-membros. É essa estrutura que poderá permitir à Europa enfrentar o poder das grandes tecnológicas e lutar por uma autonomia digital. Mesmo perante aliados próximos, o continente afirma discretamente os seus interesses. O empenho, mesmo que tardio, na operação Arctic Endurance demonstra que a Europa não pretende ceder o futuro do Ártico e da Gronelândia a potências externas.
É certo que este despertar enfrenta algum ceticismo de Berlim e de outras chancelarias europeias, que duvidam da coesão europeia perante a pressão de Washington e a ascensão nacionalista. Contudo, essa visão ignora que a própria ameaça está a gerar o seu antídoto. A capacidade de resposta à guerra híbrida russa aumentou e o crescimento dos populismos parece começar a estagnar. Até vozes de um “euroceticismo suave”, como a de Giorgia Meloni, têm sido absorvidas pelo pragmatismo do eixo de Bruxelas.
Essa mudança deve-se, em grande parte, ao novo realismo na gestão das fronteiras e ao combate à imigração permissiva. Durante anos, o descontrolo foi um sintoma da indolência que procurava a solução menos conflituosa. Ao adotar políticas restritivas, como é o caso paradigmático da Dinamarca, para acabar com o abuso e o facilitismo, as democracias retiram o capital de queixa aos populistas e reforçam a resiliência social. O objetivo não é proibir a imigração necessária, mas garantir que a solidariedade não é sinónimo de caos.
Este novo rigor é essencial num espaço fustigado por extremismos, incluindo o ressurgimento de um antissemitismo tóxico.
A reação consolidou-se também na geoeconomia. A urgência no acordo com o Mercosul e o pragmatismo com África mostram que a Europa percebeu que não pode limitar-se ao papel de árbitro moral. Tem de ser um jogador assertivo e consequente. Se não ocupar o seu espaço com investimento e influência, outros fá-lo-ão sem hesitar.
O tempo da letargia acabou. Ou a Europa assume o seu exoesqueleto de superpotência, ou continuará a ser apenas o palco onde outros escrevem a história.