Catalunha: Sánchez quer socialistas a governar com a ERC e a Comuns

Se o Junts per Catalunya, liderado por Carles Puigdemont, não tivesse apoiado o governo de Madrid, Pedro Sánchez não seria o atual chefe do governo. Mas o líder socialista não vai retribuir a amabilidade.

Catalunha: Sánchez quer socialistas a governar com a ERC e a Comuns
Catalunha Puigdemont

Pedro Sánchez, presidente do governo espanhol e líder do PSOE, disse, esta sexta-feira, que entende que o Partido Socialista da Catalunha, que ganhou as eleições de há uma semana, deve formar governo, devendo para isso concentrar-se em negociações com a Esquerda Republicana da Catalunha (ERC) e com a Comuns (Sumar e Podemos) – cujos votos somam 68 lugares no parlamento, exatamente o mínimo para a maioria absoluta. Desta forma, o chefe do governo coloca de lado qualquer hipótese de aceitar um governo onde o Junts per Catalunya, liderado por Carles Puigdemont, seja um dos protagonistas.

Puigdemont, um independentista de direita, foi o último a entrar no ‘barco’ do PSOE – e os seus votos foram fundamentais para que a coligação dos socialistas com os independentistas da Catalunha e do País Basco pudesse encontrar uma alternativa ao Partido Popular, que tinha ganho as eleições, e mantivesse o domínio do governo central.

As negociações foram demoradas e difíceis – com o líder popular, Núñes Feijóo, a aconselhar Puigdemont a não aceitar as propostas dos pouco credíveis socialistas. Agora, passadas as eleições na Catalunha, e tendo Puigdemont manifestado interesse em formar governo com todos os restantes independentistas (que pela primeira vez desde 1980 não têm maioria), Sanchéz ‘bate-lhe’ com a porta na cara. E, num discurso público sobre o assunto, foi muito duro para com o ainda foragido à Justiça.

Pedro Sánchez acredita que Alberto Núñez Feijóo e Carles Puigdemont têm algo em comum: ambos os líderes têm dificuldade em aceitar que falharam nas suas tentativas de serem investidos, um como chefe do executivo central e o outro como presidente da Generalitat. Enquanto o líder do PP e os seus apoiantes garantem que não está na Moncloa “porque não quer”, o candidato do Junts às eleições catalãs do passado domingo insiste em procurar um pacto com a ERC e pedir ao PSC que, apesar de ter conseguido uma vitória incontestável, se afaste, e o deixe governar.

Citados pelos jornais espanhóis, Sánchez disse que “Puigdemont está numa situação muito parecida com a do senhor Feijóo. Eles não se dão com os números. Ele pode fazer como o Feijóo e dizer que não é presidente porque não quer, mas os números são o que são. É preciso aceitar a realidade. Todos os caminhos levam a Salvador Illa” (líder do PSC), disse Sánchez esta sexta-feira durante uma entrevista.

Assim, a possibilidade de os socialistas catalães, que conquistaram 42 lugares contra 35 do Junts, com uma diferença de quase 200 mil votos, permitirem o surgimento de um governo liderado por Puigdemont está “completamente fora de causa”, disse o líder do PSOE. A sua opção, como a de Salvador Illa, é chegar a um acordo com a ERC e o Comuns, forças “progressistas” que juntamente com o PSC somam 68 deputados no Parlamento, o número exato em que se situa a maioria absoluta.

O problema é que a ERC entrou em processo de substituição do seu líder, depois de Pere Aragonès ter desistido da política na sequência da derrota eleitoral e ainda não há qualquer indicação (pública) de que aceitará a geometria proposta pelo PSC e pelo PSOE.

A imprensa catalã adianta que as eleições catalãs deram a Sánchez um um impulso indispensável para esta legislatura tão complexa, marcado pelo dependência da ERC e do Junts no congresso – esquecendo papel idêntico dos independentistas do País Basco, o Bildu e o PNB. As eleições do último domingo validaram, na perspetiva do chefe do governo de Madrid, iniciativas polémicas como a amnistia, que longe de dar asas ao movimento independentista, como sustentava o PP, contribui para enfraquecê-lo nas urnas. “Colocámo-lo em jogo e o tempo mostrou que estávamos certos”, disse o chefe do governo espanhol.

O principal risco da postura de Sánchez é, evidentemente, que resposta em Madrid continuarão a dar os partidos da Catalunha. Ou seja, a falta de suporte de Sánchez a um governo formado pelos independentistas (com a abstenção do PSC a quando da sua apresentação) pode levar o Junts a repensar e a acabar com o apoio ao PSOE. O presidente do governo acredita, segundo disse nas declarações desta sexta-feira, que nem um nem outro partidos vão mudar de atitude e vão continuar a negociar no Congresso, onde são essenciais para o Executivo avançar com as suas iniciativas. Mas é claro que tudo pode ficar mais difícil. “São planos diferentes”, disse o líder do PSOE sobre a influência do resultado catalão na governabilidade de Espanha. Por enquanto, Sánchez não teve qualquer contacto, direto ou indireto, nem com Puigdemont, nem com a direção da ERC. Entre outros motivos, porque é Salvador Illa quem deve liderar as negociações de forma autónoma, disse o chefe do Executivo.

“Os partidos têm seus processos internos, as suas etapas. A sociedade catalã não aceitaria uma nova eleição. É imperativo apelar à responsabilidade para que haja um novo governo daquele que ganhou e tem os números para levar a cabo a sua investidura”, insistiu Sánchez, sublinhando que “quatro em cada cinco eleitores na Catalunha votaram no domingo em opções políticas que são a favor da amnistia”.

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