O fundador e CEO da Easypay, Sebastião Lancastre, acredita que o futuro passa pela desmaterialização do dinheiro com recurso à inteligência artificial, que passará a ser uma companhia diária. “Dentro de 50 anos vamos chegar ao café e dizer: pague 10 euros ao sr. João e fique com o troco”, afirma.
O dinheiro é hoje muito diferente daquilo que era há 100 anos ou mesmo há 50. Não só abandonamos o padrão ouro e outras formas de ligação ao “mundo fisico” , como a maior parte da massa monetária em circulação passou a ser virtual. Como será dentro de 50 anos?
Aquilo que sabemos com certeza é que vamos assistir a uma cada vez mais rápida desmaterialização do dinheiro. Com a chegada em força da Inteligência Artificial, a forma como pagamos será cada vez apoiada em devices, sem recorrer a dinheiro físico e cartões. As instruções por voz serão uma realidade cada vez mais presente e a validação será feita com impressão digital ou reconhecimento facial. A IA estará totalmente preparada para receber e interpretar indicações. Daqui a 50 anos não há qualquer dúvida de que a IA será nossa companhia nas ações mais banais. Bastará chegar ao café e dizer: “pague 10 euros ao Sr. João e fique com o troco”.
Que papel estará reservado aos bancos tradicionais, neste novo mundo das criptomoedas?
O desafio que se coloca atualmente é que as soluções de pagamento acrescentem valor. Essa pressão é partilhada entre os bancos tradicionais e as fintechs. O cliente quer saber tudo sobre as compras que faz: fiz o pagamento x, no local y, às z horas, a fatura associada é esta, etc. Isto é o que as criptomoedas permitem fazer, o rastreamento completo do pagamento, em que a informação nunca é destruída. O consumidor quer ter acesso a esta informação, por isso, os bancos tradicionais e as fintechs têm que ser ágeis a conseguir fornecer esta informação, a enriquecer as transações com informação útil e torná-la disponível pelo máximo de tempo possível. O consumidor quer ter esse poder, de aceder e tratar a informação dos seus pagamentos.
As govcoins estão a caminho. O que vai mudar com o advento do euro digital e do dólar digital?
As govcoins são a resposta dos bancos centrais à crescente procura dos consumidores por pagamentos digitais, mais rápidos e seguros e vão ser mesmo uma realidade.
Nós podemos olhar para as inovações de duas formas distintas. No primeiro caso, a inovação surge porque o consumidor pede; no segundo caso, a inovação chega ao mercado de forma completamente disruptiva antecipando as necessidades futuras do consumidor. Neste caso, já temos uma pressão para que se consigam fazer transações seguras e instantâneas em qualquer parte do mundo. No entanto, extraordinariamente, já estamos na terceira década do século XXI e as transferências instantâneas são ainda muito pouco disponíveis e muito caras. Especialmente, numa lógica B2B esta realidade é muito urgente, pois as transações ainda são feitas de forma muito arcaica.
Esta realidade vai configurar um verdadeiro game changer no mundo empresarial. Vai ser possível poupar muito tempo e dinheiro.
Quais os grandes riscos para as economias e para o sector financeiro? O que falta acautelar?
O maior desafio prende-se com a confiança. Eu quero ter a certeza de que estou a fazer um pagamento para o sítio certo. As burlas e fraudes são um grande risco que deve ser acautelado e o mais possível mitigado. Estamos neste momento a assistir ao desenvolvimento de tecnologia que nos permita fazer uma confirmação imediata e fidedigna que um determinado IBAN corresponde a um determinado NIF. No início do próximo ano, este processo, que nos chega pela mão da IA, já deverá ser uma realidade. Estes processos vão acelerar e o consumidor vai ser cada vez mais exigente, quer no que diz respeito à segurança, mas também à rapidez.
É necessário investir mais na literacia financeira para acautelar os interesses dos cidadãos nesta nova realidade?
Claramente. É uma obrigação dos Estados. Tal como há anos assistimos a campanhas de Prevenção Rodoviária muito assertivas, é fundamental que o mesmo aconteça com as questões de literacia financeira. Estes temas exigem muita informação e ainda mais treino. As empresas já estão a fazer o seu papel através de departamentos de controlo de passwords e de phishing que colocam os colaboradores à prova. Se falharem nos testes, são encaminhados para formação.
Temos todos de ser treinados a desconfiar. Se for bom demais para acreditar, é porque não é verdade. Este pensamento não é automático, tem de ser treinado.
Há uma nova diretiva europeia a chegar. O que deverá mudar?
A modernização de serviços de pagamentos está a chegar com o novo programa da UE, o PSD3 (Payment Services Directive 3). Esta proposta, que não será tão disruptiva como foi o seu antecessor, o PSD2, que deixou como principal marca a introdução da autenticação forte, vai centrar-se nos interesses do consumidor, na concorrência e, acima de tudo, na segurança. Vamos assistir a um programa que vai focar-se essencialmente na resolução de duas questões que não ficaram totalmente endereçadas – iniciação de pagamentos e a agregação de informação financeira. Sabemos que a experiência do utilizador é fundamental para o sucesso destas medidas e é aí que a inovação deve apostar.