Rui Rocha, o novo líder nacional da Iniciativa Liberal (IL), é um descontrolado político. Os seus textos, primeiro na blogosfera e depois nas redes sociais, evidenciam um gravíssimo descontrolo emocional no âmbito da tomada de decisão em relação a assuntos da atualidade política. Perde, com facilidade, a compostura e recorre, com frequência, à mais vulgar brejeirice para transmitir a sua indignação e ocultar a pobreza franciscana dos seus argumentos.
Cotrim de Figueiredo justificou a sua saída com a necessidade de a Iniciativa Liberal passar a ter, a nível da liderança, “uma atitude mais combativa, abrangente e popular”. Ou seja, substituiu um voluntarioso aprendiz de Marco Aurélio por um Cómodo com gosto pelas cruéis lutas de gladiadores que ocorrem, diariamente, no sangrento circo em que se transformaram as redes sociais. Um local onde triunfam os pequenos calígulas e neros deste mundo, capazes de adorar cavalos e de incendiar qualquer assunto com os fósforos da mais abjeta ignorância e irracionalidade.
Rui Rocha é um veterano dessas lutas. Uma espécie de gladiador invicto do teclado, que sobreviveu, pela noite fora, a muitas batalhas sangrentas. Preenche, nesse sentido, a grandeza épica que Cotrim de Figueiredo projetou para o partido.
Para começar a impor a imagem da sua liderança musculada, nada melhor, terá pensado Rui Rocha, que atravessar o Atlântico e, na terra dos herdeiros dos mitológicos atlantes, fazer algo com estrondo. Algo que consiga mexer com os alicerces do Coliseu mediático nacional, órfão, na última semana, de mais um escândalo ministerial.
Nos Açores juntou-se a fome com a vontade de comer. O líder local da Iniciativa Liberal, Nuno Barata, é também um velho veterano da blogosfera e um triunfador das redes sociais. Um inquieto por natureza, com um gosto irreprimível para a criação de factos políticos e de circos mediáticos de anões, zebras e escorpiões. Já em 1998, quando integrava a bancada parlamentar do CDS/PP no Parlamento dos Açores, se tinha tornado deputado independente, obliterando, desta forma, a maioria não socialista que então existia no arquipélago. Deu assim de bandeja, aos socialistas então liderados por Carlos César, mais 22 anos de governo despótico.
Assim, apenas dois dias depois de Rui Rocha ter saído dos Açores, Nuno Barata montou o espetáculo que preparou em conjunto com o seu líder nacional. Rompeu o acordo de incidência parlamentar que tinha com o PSD e disponibilizou-se a votar favoravelmente a moção de censura que o PS/Açores se prepara para apresentar, conforme Francisco César confirmou ao jornal “Público”. A Iniciativa Liberal pretende, assim, derrubar, em conluio com o PS e o BE, o Governo dos Açores.
Como é evidente, nada justifica esta atitude, a não ser o gosto reiterado e imoderado pelo uso do punhal da traição – a comunicação foi feita sem aviso prévio, nem qualquer tentativa de diálogo com o PSD ou o Governo Regional – e a monstruosa irresponsabilidade de Rui Rocha e Nuno Barata.
Existe estabilidade política nos Açores (o Governo viu aprovados 98% dos diplomas que apresentou no Parlamento), o Orçamento foi aprovado por uma larga maioria em novembro passado, os Açores contam com o maior número de empregados de sempre, os indicadores de atividade económica somam 20 meses de crescimento ininterrupto, os impostos (IVA, IRC e IRS) foram reduzidos ao mínimo legal, o Rendimento Social de Inserção sofreu uma redução de 30 % do número de beneficiários, o turismo bate todos os recordes, o número de empresas públicas diminuiu significativamente e o Governo Regional está a executar um Orçamento com endividamento zero (o primeiro em 14 anos).
Tudo isto foi concretizado em apenas dois anos e no âmbito de uma situação económica extremamente desfavorável, criada pelo maior conflito militar europeu desde o fim da Segunda Guerra Mundial. O que é que falta fazer? Fazer ressuscitar o Adam Smith deve ser uma das exigências que se acotovelam nos privilegiados cérebros de Rui Rocha e Nuno Barata.
Outras coisas mais terra a terra, como completar o processo de privatização da SATA, utilizar, em tempo útil, os fundos europeus que têm prazos apertadíssimos e não juntar uma crise política artificial a uma conjuntura económica e social tão exigente, não pesam nas consciências de pirómanos tão consumados como Rui Rocha e Nuno Barata.
Veja-se bem a insanidade da Iniciativa Liberal neste episódio. Vota a favor a moção de censura dos socialistas, tenha ela o conteúdo que tiver, mesmo que faça referência à necessidade de endividamento público, patrocine o aumento dos impostos para a classe média ou defenda a reversão das privatizações já efetuadas ou em curso, como o PS e o BE advogam nos Açores.
Temos de pensar mil vezes antes de voltar a confiar na IL de Rui Rocha. São instáveis, irresponsáveis e representam uma espécie de seguro de vida dos socialistas. Escrevo-vos dos Açores. Um território que a IL está empenhada em devolver ao domínio autocrático dos herdeiros de Carlos César e de António Costa.