Redação

Um embuste político

O pior que pode acontecer a Lisboa é alguns políticos servirem-se dela como trampolim para outras funções. É permanecerem só enquanto dá jeito. É estarem e não estarem. É fazerem de conta que gostam dela para afinal a apunhalarem pelas costas.

No fundo, o pior que pode acontecer a Lisboa é surgir-lhe um autarca como António Costa. Que foi fazendo sucessivas juras de fidelidade aos lisboetas sempre com reserva mental. Deu-lhe jeito como passaporte para outras etapas políticas. Para disputar a liderança do Partido Socialista, por exemplo. E agora para pretender chegar ao Palácio de São Bento. Tal como teria dado jeito, numa certa altura, para sonhar com Belém.
Tudo, para ele, importava mais do que a Praça do Município. Até o Largo do Rato.

Eleito secretário-geral do PS, funções que garantia não ambicionar, logo tratou de rasgar outra promessa. A de não partilhar a liderança do partido com as funções autárquicas. Passámos assim a ter mais uma originalidade na política portuguesa: a do gestor camarário em part time. Quando devia estar em Marvila ou na Madragoa, Costa passeava-se por Arcos de Valdevez. Quando o aguardavam no Lumiar ou em Campo de Ourique, andava ele por Borba ou Estremoz.

Nada afasta tanto os cidadãos da política como esta noção de que as promessas têm um efeito meramente instrumental, para efeitos de propaganda, e um prazo de validade que se esgota no momento em que acabam de se escrutinar os boletins de voto.

Nada afasta tanto os cidadãos da política como a amarga sensação de que são usados como involuntárias cobaias em estratégias de interesse pessoal ou partidário que só beneficiam os trampolineiros de ocasião capazes de iludi-los com falinhas mansas mas falsas na hora da caça ao voto.
Alguns dirão que a democracia permite estas coisas. Permitiu, por exemplo, durante seis meses a existência de um presidente a tempo parcial à frente do mais emblemático município do país. Permite que as juras de apego aos cargos se dispersem para longe, sopradas por ventos de circunstância. Permitem até que o novo presidente da Câmara de Lisboa resulte não da escolha dos eleitores, como seria recomendável para reforçar os mecanismos da transparência democrática, mas de manobras de bastidores no âmbito da lista mais votada.

Tudo isto será legítimo, numa leitura estrita da letra da lei, mas não deixa de ser um embuste político, ainda mais grave por ser praticado por um partido que gosta de dar lições de ética comportamental a outros. Como todos os embustes, também este é condenável. Com todas as letras e sem rodeios de qualquer espécie.

Mauro Xavier
Gestor

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