Já todos percebemos que o ano em curso, do ponto de vista sindical, vai ser muito difícil.
Em primeiro lugar porque o contexto europeu não ajuda. Depois de dois anos de enorme instabilidade provocada pela pandemia, com os inevitáveis impactos económicos e financeiros no Estado e nas empresas, está agora em curso maior crise de segurança na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. Os indicadores de desempenho das economias europeias, como não poderia deixar de ser, têm vindo a refletir esta adversidade global.
No plano interno, por sua vez, a maioria absoluta obtida por António Costa foi em simultâneo uma bênção e uma maldição. O líder do PS libertou-se da sua dependência parlamentar relativamente ao PCP e ao BE, mas por sua vez estas forças políticas, com especial destaque para a primeira, reconquistaram também elas a sua autonomia estratégica.
É por isso previsível que, em linha com o seu tradicional posicionamento ideológico e político, algumas forças sindicais optem por endurecer os seus protestos, regressando à mobilização de rua que tão ausente esteve na anterior legislatura.
Reação pavloviana, dirão alguns, com o devido respeito. Mas o que dizer de certas confederações patronais cujo comportamento mimético é igualmente previsível, tendo sempre por ponto de partida a rejeição de aumentos salariais e a mão estendida perante o Estado? Pela mesma bitola, não é também pavloviano?
O sindicalismo precisa de se reinventar, frisam por vezes alguns observadores. Certo. E as confederações patronais, não? Em que empresa portuguesa se encontra, tal como acontece na Alemanha, um representante sindical na sua administração? Que empresas portuguesas têm aumentos salariais indexados aos ganhos de produtividade, à inflação e, em última instância, aos seus resultados anuais?
Os nossos gestores ‘modernos’, na verdade, têm uma visão muito antiquada, e que passa por maximizar o valor do acionista e alocar o mínimo valor possível aos custos de mão-de-obra. E por isso, claro, recebem prémios chorudos.
Há um outro caminho?
Claro que sim. Pela parte que me toca, posso falar do lado sindical. Um caminho que passa por salvaguardar apenas e só os direitos dos trabalhadores, sem dependências partidárias ou outras obediências. Esse é o caminho da USI – União dos Sindicatos Independentes, que lidero, a única confederação sindical autónoma e independente em Portugal.
Na USI rejeitamos a pretensão hegemónica das outras centrais sindicais de dividirem entre si a representação dos trabalhadores. Estamos do lado certo da história, como os factos demonstram. Atualmente, há cada vez mais sindicatos independentes, o que seguramente atemoriza alguns. A nós, o sindicalismo independente não nos assusta nada. É o nosso espaço natural.
E num ano tão exigente como este, ninguém melhor do que uma estrutura sindical independente para defender apenas e só os direitos dos trabalhadores. Cá estaremos para isso.