Rosália Amorim, Comentadora

Tarifas de Trump: it´s the geopolitics…

Com Trump a sentar-se na cadeira de Roosevelt, Truman ou Kennedy, estes dias que estão a abalar o mundo ditarão o fim da relação transatlântica? Espera-se que o bom senso vença o braço de ferro.

O Dia da Libertação, 2 de abril, segundo Donald Trump, simboliza o abalo sísmico do aumento das tarifas alfandegárias sobre o comércio mundial, em especial sobre o ex-bloco NAFTA (Estados Unidos, Canadá e México) e a União Europeia. Vários economistas, entre os quais Christine Lagarde, Presidente do Banco Central Europeu, já alertam para o risco de recessão global.

Sendo uma economia aberta, naturalmente, Portugal será também afetado, mas, muito provavelmente, serão os consumidores norte-americanos a sofrer mais com o efeito bumerangue da reiterada medida protecionista da administração Trump.

Só a título de exemplo, destaco as tarifas que anunciou de 34% sobre os produtos importados da China, 27% para a Índia, 20% para a União Europeia e 10% para o Reino Unido. Os automóveis produzidos no exterior serão taxados em 25%, afetando sobretudo a Europa, Ásia, América Latina e Canadá.

As nações europeias vão dizendo que não pretendem uma guerra comercial com os Estados Unidos da América (EUA), mas a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, fez questão de afirmar, em Estrasburgo, no dia 1 de abril (e não foi mentira) que a UE dispõe de “muitas cartas” e está preparada para retaliar. “Temos tudo o que é necessário para proteger os nossos cidadãos e a nossa prosperidade. Temos o maior mercado único do mundo. Temos a força para negociar, temos a força para resistir. E os cidadãos da Europa devem saber: juntos, iremos sempre promover e defender os nossos interesses e valores. E defenderemos sempre a Europa”, declarou.

Ao mesmo tempo, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, afirmava que a UE deve ser “firme, mas inteligente” contra o “grande erro” de Trump. Costa logo partiu de Estrasburgo para Samarkanda, a histórica cidade da antiga rota da seda, no Uzbequistão, onde decorre (dia 4) a primeira cimeira União Europeia-Ásia Central.
Uzbequistão, uma geografia improvável? Este é um sinal claro da estratégia europeia de diversificação de parcerias económicas e comerciais.

Nesta mesma estratégia, vale a pena lembrar o histórico acordo União Europeia-Mercosul, que foi celebrado a 6 de dezembro último, no Uruguai, mas que ainda terá de ser ratificado pelos vários estados-membros da União. Também o Canadá poderá ser um parceiro privilegiado da UE, depois do aumento da tensão política e comercial entre Washington e Otava. Aliás, nos últimos dias foram várias declarações amigáveis ouvidas de parte a parte, ou seja, do novo primeiro-ministro canadiano e dos governantes europeus.

No outro lado do tabuleiro de xadrez, a China alia-se ao Japão e à Coreia do Sul (numa ação pouco usual) contra o aumento das tarifas dos EUA que penaliza a indústria automóvel, o setor tecnológico, etc. E, claro, enquanto o mundo económico está em alvoroço, Pequim avança com novas manobras navais em Taiwan, no limite da “linha vermelha” das águas territoriais, depois de, no mês passado, o presidente de Taiwan, Lai Ching-Te, ter apelidado Pequim de “força estrangeira hostil”.

Noutra geografia, que não nos passe despercebido o papel da diplomacia da Turquia e da Arábia Saudita na tentativa de paz na Ucrânia, juntando à mesma mesa Moscovo, Kiev e Washington, mas excluindo Bruxelas.

Parece claro que este novo mandato de Donald Trump está a abalar a geopolítica, além de poder provocar uma recessão económica que deveria ser evitada. Se olharmos para o copo meio cheio, no caso europeu, é visível que a UE foi obrigada a despertar para a urgência de reforço do investimento em defesa e segurança e também para a oportuna e inteligente aproximação do Reino Unido à UE, a propósito do insólito encontro de Trump com Zelensky, na sala oval da Casa Branca, em pleno Carnaval (e não foi uma brincadeira).

Agora, a poucos dias da Páscoa, o grande desafio da Europa é, não tanto o da reencarnação cristã, mas sim encontrar uma nova vida ou uma estratégia viável de sobrevivência sem o apoio do tradicional aliado norte-americano. Ironicamente, este ano, o mundo assinala os 80 anos do final da Segunda Guerra Mundial, quando os EUA salvaram a Europa dominada por Adolf Hitler.

Com Trump a sentar-se na cadeira de Roosevelt, Truman ou Kennedy, estes dias que estão a abalar o mundo ditarão o fim da relação transatlântica? Espera-se que o bom senso vença o braço de ferro porque este aparente divórcio é, na verdade, contranatura. Pode ser que a economia e os mercados façam Trump mudar de ideias. Elon Musk é já a primeira vítima, mas o dono da Tesla estará decerto mais preocupado com o seu bolso do que em brincar com a motosserra que usou para cortar gorduras da administração pública dos Estados Unidos. Este não deveria ser o tempo da irresponsabilidade política, mas é claramente da geopolítica ou da geoeconomia.

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