Nuno Leite, Chief Operating Officer, GCI

Somos todos ‘Millennials’

Sem propósito, causas envolventes e abrangentes não haverá eleitores logo não haverá democracia.

Este não é mais um artigo sobre gerações ou conflitos geracionais. Já há muitos e o assunto, no meu entender, está explorado ao limite. Para além da nota anterior, confesso uma certa fadiga com alguns conceitos que abordarei no parágrafo seguinte, mas são importantes para estruturar o fio condutor do que virá a seguir.

Pensando na Europa, anos 70 e 80, dá-se o fim das grandes lutas católicas pelo conservadorismo. Segue-se o Tratado de Maastricht, a livre circulação e de residência dos cidadãos europeus, ou seja, o processo de multiculturalismo regional do Velho Continente. Entra a seguir a revolução tecnológica, que proporcionou a coroação do “eu” e levou ao extremo a noção de ligação e proximidade, remodelando ainda mais o conceito de globalização. Mais recentemente, a crise financeira e o consequente caos social, com incidência na possibilidade de pobreza e exclusão social, proporcionaram os ingredientes que faltavam para uma reestruturação de ideais.

Daqui adveio o desmoronamento de um enredo de crenças de duas gerações que proclamavam a integridade dos valores morais e a fé nas organizações rígidas e verticalizadas. Houve quase uma incisão ocular tal como Buñuel, em parceria com Dalí, preconizou no imortal Un perro andaluz. As classes e a religião foram caindo e, pela necessidade de pertença a algo maior, os ideais nacionalistas começaram a reemergir. Foi aqui que todos virámos Millennials. Porquê? Pense-se em dois dos principais pilares da sociedade ocidental: sistema político e ecossistema empresarial. Agora veja-se para onde estamos a caminhar em cada um deles.

O sistema político contemporâneo atravessa uma das suas maiores reformas desde que passámos a viver debaixo de ideais democráticos. O voto “clubístico” é um ato em declínio. Números brutais de abstenção, fenómenos populistas e imediatistas têm deixado as organizações partidárias em convulsão. As pessoas seguem propósitos, projetos específicos e personalidades “desvinculadas do aparelho”. Há vários exemplos espalhados um pouco por todo o mundo. E, independentemente do seu sucesso, o que conta é que o risco tomou o espaço antes ocupado pela estabilidade das organizações políticas referenciais. Na Europa, Espanha, Inglaterra, França, Grécia e até Portugal, com um governo que conseguiu um acordo impensável à esquerda, são exemplos claros de como o sistema político mudou e vai continuar a mudar. Sem propósito, causas envolventes e abrangentes não haverá eleitores logo não haverá democracia.

As empresas são desde sempre as organizações mais dinâmicas e com maior responsabilidade nos processos de inovação e gestão de mudança. Não há maior revolução no presente que a preconizada pelo ecossistema empresarial. Grandes multinacionais, no setor FMCG, como Unilever, Mars ou Nestlé, estão a atravessar, sobretudo na última década, verdadeiras metamorfoses. Não há quase nada ligado ao negócio que não tenha uma causa, uma história, portanto um grau de envolvência com o consumidor nunca antes testemunhado. O mesmo se passa no retalho moderno, com gigantes como o Walmart, Tesco ou, em Portugal, o Continente. Estratégias de proximidade com as comunidades, produtores, programas de estilos de vida saudáveis, tudo isto são respostas e adaptações aos princípios Millennial.

Na nova geração de empresas, fundadas no século XXI, o EBITDA já não é a obsessão. O reinvestimento é o propósito principal, ou seja, uma cultura cíclica de permanente inovação e crescimento que, em muitos casos, não se traduz de todo em lucros. Veja-se o caso da Tesla: nunca teve proveitos desde sua fundação, mas os investidores preferem lá colocar dinheiro ao invés, por exemplo, de numa das maiores construtoras mundiais, a GM, que apresenta resultados estáveis desde 2012. Outro caso: a Uber. Mesmo apesar dos recentes escândalos ligados à gestão de topo da empresa, a Uber continua a ter uma avaliação de mercado entre os 40 e os 50 mil milhões de dólares. Foi fundada com um ideal claro, um propósito que tocou em milhões de pessoas pelo mundo inteiro e mudou a forma como os cidadãos entendiam a mobilidade nas cidades. São estes alguns dos paradigmas que justificam a famosa frase “Think Like a Start Up, Act Like a Fortune 500 Company”.

A conclusão é que em pouco mais de duas décadas aconteceram múltiplos choques que abrangeram todos os pilares da sociedade, do cultural ao político, do financeiro ao social. E no meio de todo esse enredo foi necessário recriar, num modelo em continuum, a relação das pessoas com esses pilares dilacerados. Há uma geração, nem melhor nem pior do que as anteriores, que no meio de toda essa complexidade deu início a uma forma de estar diferente. Todavia, esse processo de recriação não vive em exclusivo naqueles que pertencem a essa geração. Todo o mundo, pelo menos o mais ocidentalizado, mudou ou está a ser forçado a mudar. É por tudo isto que reafirmo: somos todos Millennials!

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